Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

Em véspera de Natal

A tradição mantém-se. Para muitos talvez tenha perdido sentido, mas a beleza dos vasos de ervilhaca, derramando uma chuva de fios brancos, ou dos pequenos prados de trigo verdejante, continua a marcar presença na decoração de Natal de muitas famílias.

Contrastando com as luzes que piscam, as árvores de plástico e os enfeites cobertos de areias cintilantes, a ervilhaca e o trigo transportam-nos para outro tempo e revelam um Natal com outro sentido.

Este é o Natal simples, dos que aguardam com esperança a renovação e reconhecem humildade e simplicidade na gruta de Belém.

Reza a tradição que as sementes devem ser postas em água a 8 de Dezembro, festa de Nossa Senhora da Conceição, e na terra no dia 13, dia de Santa Luzia. Uma tradição que terá vindo com os povoadores, já que acontece no Algarve, onde também estas sementeiras enfeitam os altarinhos dedicados ao menino Jesus.

Rodear o presépio ou o altar do Menino, de tangerinas e pequenos canteiros de ervilhaca, trigo, ou até de alpista e outros grãos germinados, era prenúncio de quem esperava boas colheitas e fartura de pão, no ano seguinte.

Em torno da imagem, que simboliza o renascimento, a esperança e um novo tempo, a tradição das pequenas sementeiras mostra-nos um povo consciente da incerteza e da vulnerabilidade da vida. Nada está garantido! Mas, quando há entrega e os gestos de simplicidade são genuínos, tudo ganha sentido, até os acontecimentos menos bons e os desejos não concretizados.

O Natal não é tempo de fachadas ou faz-de-conta, mas de reencontros sinceros, profundos.

Por detrás dos brilhos e das luzes cintilantes, há um cheiro a cedro e a luz de uma vela que ilumina o rosto de uma criança, aquecida pelo bafo de um burro e de uma vaca, como nos conta a história popular.

Um Deus feito homem mudou a humanidade e, ainda agora, reúne famílias em torno do presépio, que se deve a São Francisco quando, no século XIII, utilizou esta representação para falar do nascimento de Jesus.

Um acontecimento, vivido há mais de dois mil anos, transformou a gruta de Belém num espaço doméstico, que se reconstrói em milhares de casas e terras, fazendo memória desse momento que, segundo os textos, levou Maria e José a refugiarem-se num estábulo, quando se dirigiam a Nazaré para que Jesus aí nascesse e fosse depois registado, em Jerusalém.

Para as religiões monoteístas, Jerusalém é muito mais do que um lugar na história sagrada, é uma referencia para os cristãos, que reconheceram o Messias, mas também para os judeus, que ainda o esperam, ou os muçulmanos que acreditam no Deus do profeta e muitos outros, que ainda agora procuram entender a mensagem de Belém.

A decisão da ONU, ao manter Jerusalém separada dos conflitos entre Israel e Palestina, faz parte do plano de pacificação entre estes territórios, que são vítimas de uma história política onde se misturam credos e lugares de culto.

A paz não se decreta, constrói-se. E essa construção é um edifício frágil, que pode levar anos, décadas, a montar e ser destruída num sopro.

Foi isso que o presidente dos Estados Unidos fez, ao decidir reconhecer Jerusalém como capital de Israel. À distância, sem respeitar a história da Palestina, Trump assoprou um braseiro, supostamente, para cumprir uma promessa eleitoral.

A paz é uma ciência (paciência) que só os humildes de coração conseguem decifrar, inacessível a quem vive ofuscado com o brilho dourado do poder.

Natal é tempo de procurarmos o essencial, no cheiro do cedro, num prato de ervilhaca ou no brilho de uma vela; entender a paz e reconciliar a fragilidade do ser humano com a força da esperança.

(texto publcado no jornal Açoriano Oriental de 12 Dezembro 2017)

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