Terça-feira, 1 de Abril de 2008

Use o novo e deite fora o velho.

Numa sociedade do “use e deite fora”, há idosos tratados como peças avariadas, produtos de consumo que se abandonam nas urgências dos hospitais, em depósitos de velhinhos, supostamente classificados como “lares”. A doença, a fragilidade e as limitações motoras, próprias de quem muito viveu, foi e trabalhou, incomodam, dão trabalho e exigem uma atenção redobrada.

Os tempos são outros! É certo. Hoje, numa família onde o casal trabalha e escasseiam os recursos, cuidar de uma pessoa idosa não é tarefa fácil, sobretudo se está acamada. Mas, quando uma família recorre a uma instituição, procurando ajuda, seria de esperar que uma vez garantida essa assistência os familiares ficassem mais disponíveis para apoiar o idoso em termos afectivos. Institucionalizar um idoso num lar pode ser uma necessidade, mas não deve ser vivido como uma fatalidade, uma condenação.

O Sr. João levou uma vida de trabalho e quando morreu a companheira de anos com quem partilhou alegrias e dificuldades, o mundo desabou. De um dia para o outro a solidão tomou conta dos cantos da casa, grande demais; os tachos tornaram-se desnecessários, para quem come sobretudo sopa, chá e umas bolachas; a cama ficou alta e os degraus das escadas passaram a ser obstáculos difíceis de superar.

Em casa da filha a vida foi se complicando. Estão sempre todos muito ocupados, esquecem-se da medicação que ele tem de tomar a horas e, quando chega o fim-de-semana ninguém se presta para um passeio, uma saída da rotina, porque têm festas, convites de amigos e o velhote tem de ficar deitado antes deles saírem.

Só o neto mais novo, por sinal também João, todos os dias vem dar um beijo. Senta-se na cama e pede uma história dos tempos em que ele ia à pesca.

O lar de idosos não foi um desejo mas uma solução. A filha insistiu, não queria que o pai ficasse tanto tempo sozinho e assim, no lar, podia conviver com pessoas da sua idade, não lhe faltaria comida, conforto e medicamentos a hora.

Não foi fácil abandonar a sua cama, a cómoda com as fotografias de outros tempos e sobretudo, deixar de contar aquelas histórias ao neto mais novo, onde misturava verdade com muita fantasia, mas que sempre lhe permitiam transmitir alguma sabedoria da vida.

Foi melhor assim! A última coisa que desejava era dar trabalho à filha. Ela já se cansa imenso para cuidar das crianças, do marido, depois de vir do emprego. Ter o pai a viver no quartinho dos fundos era uma carga de trabalhos.

Já lá vai um mês. Foi difícil, no lar é tudo parecido com um hospital: as cores das paredes pintadas a tinta lavável, as luzes florescentes, a cama articulada, o chão sem tapetes, a comida sem graça e sobretudo as tardes passadas em cadeirões junto à janela, tornam os dias todos iguais, tristes e monótonos. O regulamento limita as visitas da família durante a semana em horas que eles estão a trabalhar. Ao fim de semana, se alguém aparecer, não pode entrar no quarto, partilhado com mais dois idosos. É proibido. Só podemos conversar no salão.

Já lá vai um mês e a filha ainda não veio visitar. Ao princípio telefonava, agora nem isso. Se não fosse o neto mais novo que lhe telefona todos os dias a pedir uma história, porque lhe custa adormecer, pensaria que a família se mudou para outro terra. Moram perto, a uns vinte minutos, mas nunca têm tempo para o visitar.

Viver é envelhecer a cada minuto que passa; amadurecer a alma que nunca morre; sentir, mesmo não podendo lá chegar; sorrir, mesmo não podendo ajudar.

Há quem deite fora os velhos, como carcaças de computador atiradas para um aterro, mas esquece-se de, antes, lhes retirar a alma, a memória e o disco rígido onde cada um guarda as suas experiências de vida.

(publicado no Açoriano Oriental a 31 Março 2008)

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publicado por sentirailha às 00:22
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