Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Dá-me licença?

Esta é uma das expressões que cedo se aprendem. Faz parte das regras da chamada “boa educação”, associada ao bater na porta antes de entrar, ao “desculpe” se por alguma razão se incomodou ou se receia incomodar.

Pedir licença é sem dúvida um gesto de educação e mais do que isso é um acto de civismo. O mesmo se pode dizer de quem concede essa licença, respondendo, como é habitual, “faça favor”.

Vem esta introdução a propósito de uma situação recorrente no trânsito. Não sendo verbal, o condutor pede licença para entrar na fila. Olha fixamente os condutores que passam na via com prioridade, faz sinal com o pisca-pisca, mas o mais certo é ficar à espera. Passam um, dois, dez carros até que alguém, que só pode ser uma pessoa simpática, abranda para que passe.

Aquela espera estraga-lhe a manhã. Saiu atrasado de casa e bastaram uns minutos para levar o triplo do tempo até chegar ao emprego. Quando se senta à secretária ou surge diante do cliente ao balcão, já vai enervado por ter enfrentado uma série de condutores, de olhos vidrados no vidro, indiferentes aos seus “pedidos de licença” para entrar. Dar a vez? O quê! Eu? Eu tenho prioridade. Espera se quiseres! Parecem murmurar agarrados ao volante.

Custava muito alternar a entrada dos carros? Uma vez de um lado, outra vez do outro? Não, quem circula numa via com prioridade, parece que faz disso um pequenino poder.  

Faça favor! Passe à frente! São gestos de delicadeza que criam um espaço relacional e abrem o nosso mundo aos outros.

Ser capaz de ceder passagem quando nos cruzamos com outros condutores é um acto de cidadania, a expressão de quem, possuindo um direito, reconhece os direitos dos outros.

Ceder nunca foi perder, é sempre sinónimo de partilha, tolerância e sobretudo sentido da cooperação, valores fundamentais à vida em grupo, seja num casal, numa família, numa empresa ou na sociedade em geral.

Não há lugar ao diálogo se não houver cedência, até porque para ouvir, temos de parar de falar.

Sem cedência não há negociação, nem contrato que resista, porque um acordo é sempre a melhor forma de conjugar as diferenças, na busca do que é comum.

Faça favor ou como dizem os mais eruditos “faça o obséquio”, são bem a expressão da humildade, da generosidade que transforma os seres humanos em boas pessoas, consubstanciando gestos simples em “boas acções”; actos de civismo em alimento do espírito de cidadania; transformando o ser humano numa “boa pessoa”.

Voltando ao stress que a espera numa fila de trânsito pode representar, era bom que nas aulas de condução se ensinasse, para além do código da estrada, um conjunto de boas maneiras, entre as quais a cedência da prioridade é bem um exemplo. Temos todos pressa, queremos todos chegar, mas se soubermos dar oportunidade ao outro, estamos a contribuir para a humanização das relações e, quem sabe, ajudar a reduzir o número de pequenos acidentes, choques ligeiros, que esse stress acaba por provocar.

Bom dia! Faça favor! Em que posso ser-lhe útil? Desculpe, dá-me licença? São expressões de boa educação que fazem toda a diferença no atendimento, na relação com o outro, que não conhecemos, mas com quem nos cruzamos na rua, no comércio ou no trânsito!

Dá-me licença!? Sempre ao dispor. Obrigada

 (publicado no Açoriano Oriental a 14 de Abril 2008)

tags:
publicado por sentirailha às 10:50
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
15
16
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

. Retrocesso na Rússia

. Deveres humanos

. Carisma

. Termos de Pesquisa (visua...

. Um inimigo do povo

. Marcas do Tempo

.arquivos

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds