Domingo, 4 de Maio de 2008

É sempre com emoção…

Que se vivem as festas do Senhor Santo Cristo.

Emoção de quem há um ano não vê a imagem ou de quem há muitos anos, longe da terra natal, regressa pelas festas, alguns porque fizeram uma promessa que não querem deixar de cumprir.

Diante da imagem de um Cristo humilhado, que carrega nos ombros o desprezo, a violência de uma sociedade que não reconheceu nele o Rei, e o crucificou, como “o Homem” que se atreveu pregar o Amor e a Salvação pelo Perdão.

Diante deste rosto que não envelhece, criado por mãos humanas em busca do sentir divino, muitas lágrimas são derramadas, porque também sobre os ombros de quem olha, com emoção, o Senhor Santo Cristo, quantas vidas pesadas, quantas agressões sofridas e quantos problemas e dificuldades, doenças e limitações sem cura, sem solução à vista.

O ser humano precisa de esperança para acreditar em si, precisa de sentir que é possível, que as suas dificuldades podem ser ultrapassadas, vencidas, se tiver a força que vem do espírito. Talvez por isso, muitos não crentes se sentem tocados pela força desta imagem, e ficam impressionados com o culto ao Senhor Santo Cristo, que arrasta milhares de pessoas, num acto de fé.

Diante deste Cristo, muitos joelhos se vergam; sob o peso dos círios, homens e mulheres caminham pelas ruas da cidade, revelando ao mundo o peso da sua dor e da sua gratidão.

É difícil explicar porque este culto congrega tantos açorianos. Mas o certo é que há mais de três séculos, esta imagem, fabricada como outras por um artista, humaniza sob o olhar dos crentes, interpela e transforma-se, para muitos açorianos, num retrato vivo de alguém em quem acreditam. Não importa como, não importa porquê, o certo é muitos vêem no Senhor Santo Cristo, a expressão da dor vencida, a esperança que não morre, o milagre que é possível.

É a religiosidade de um povo que cresceu, apesar dos vulcões, dos sismos e da pirataria. Um povo que desbravou matas para fazer terras de pão e transformou os arados que não venciam a terra vulcânica, fez novos barcos para enfrentar o Altântico e adaptou a arquitectura das casas aos recursos de pedra das ilhas.

O Senhor Santo Cristo, as Festas do Espírito Santo e tantas outras expressões religiosas que marcam o calendário das comunidades destas ilhas, são o rosto de um povo de migrantes que do continente português veio e logo de início procurou em terras do Brasil, e depois na América do Norte e Canadá, melhor vida e melhor sorte.

Longe ou perto, é o coração que vibra,

Ao som do hino é a alma que se anima, diante desta imagem sofrida.

Longe ou perto, é com emoção que se reza

Palavras aprendidas ou dificuldades sentidas…

Oh Senhor, não te esqueças de mim, diante de ti rendido.

No teu sofrimento, carrega também o meu,

Tu que és esperança, atende ao meu pedido.

Longe ou perto, é o passado que se renova,

Nos pés descalços de mulheres e homens

Que carregam a cruz da vida, nos círios como prova.

Oh Senhor, não te esqueças de mim,

Longe ou perto te imploro,

Cuida das minhas feridas,

Porque as tuas quisera eu limpar,

Com as minhas lágrimas lavar.

(publicado no Açoriano Oriental a 28 de Abril 2008)

publicado por sentirailha às 15:27
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

. O Papa do sorriso

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

.arquivos

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds