Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Tolerância relativa

 

Todos parecem aceitar e, sobretudo, acreditar nos benefícios da democracia e nas vantagens em viver num regime que respeite a liberdade individual e colectiva.
Queremos ser livres para pensar, agir, reunir em grupos e partilhar ideologias diferenciadas, o mesmo é dizer, debater sobre valores e orientações normativas que possam até ser contraditórias. Seja na escola, na família ou no parlamento, somos todos chamados a construir uma sociedade mais justa, o mesmo é dizer, mais humana. Porque de nada servem as instituições se elas não tiverem a cara e forem a voz de todas pessoas, as da primeira e as da última hora, as que deram muito como das que contribuíram com pouco.
Vivemos numa sociedade imperfeita, é certo, porque as normas ou regras que nos impomos a nós mesmos, nem sempre reflectem os valores que dizemos defender e, sobretudo, não são praticadas.
Defendemos um ideal, para o qual contribuímos pouco, na esperança que outros o concretizem. Acreditamos que é importante apostar na educação como pilar do desenvolvimento, mas impomos um modelo de ser cidadão desajustado das competências das crianças que não atingem os níveis definidos nos programas escolares. Acreditamos na saúde para todos, mas sabemos à partida que as condições habitacionais, o consumo de bens alimentares desajustados às necessidades e sobretudo uma atitude preventiva pode condicionar e comprometer essa saúde.
Afinal, damos dois passos em frente e um para trás, sempre que procuramos resolver os problemas que afligem os nossos concidadãos.
Dizemo-nos tolerantes e somos capazes de apregoar aos quatro ventos que no nosso país longe vão os tempos da exploração e do trabalho infantil, do racismo ou da discriminação social. Mas na prática, não queremos estar perto daqueles que consideramos diferentes e somos condescendentes com situações injustas.
Preferimos não ter de nos cruzar com quem não possui o mesmo nível económico e por isso, não nos aflige o facto de morarem na periferia ou frequentarem outra escola que não a dos nossos filhos.
Somos tolerantes até ao ponto em que não somos incomodados.
Julgamos, de forma irreflectida os que não conhecemos e apontamos todos os males a quem vive do outro lado, nesse lugar onde raramente passamos. Droga, violência, alcoolismo são males que rejeitamos e que atribuímos aos outros, esses com quem não convivemos. Até parece que não existem casos de toxicodependência, agressões e até situações de maus-tratos em famílias das nossas relações!
Mas afinal, que tolerância é essa que discrimina e só reconhece em si próprio virtudes?
A cidadania é uma condição e uma posição plural e implica que aprendamos a lidar com o lado sombra da sociedade, o mesmo é dizer, com o nosso próprio lado sombra.
Meter a sociedade, a que dizemos pertencer, numa redoma de vidro é viver de forma artificial, e contar um conto de fadas feito de fantasia, num cenário de papelão que se desfaz no fim da festa. Todos parecem se entender enquanto dura a peça, para se digladiarem nos bastidores, longe do olhar dos outros.
Tolerância até onde? Que limites colocamos à nossa capacidade de aceitar e compreender os outros? Os que são iguais a nós próprios? Qual a vantagem! Será que isso é ser tolerante e até que ponto estamos a construir uma sociedade de oportunidades, paritária e justa?
(publicado no Açoriano Oriental a 26 de Maio 2008)
publicado por sentirailha às 23:33
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