Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

A criança precisa de tempo

As crianças precisam de tempo para crescer, para serem crianças.

Precisam de espaços próprios, de adultos atentos, de fazer experiências novas e de muitas respostas, objectivas, afectuosas e oportunas, para poderem ir construindo o seu mundo de referências.

Hoje, podemos dizer que a maioria das crianças são o resultado de um desejo dos adultos e que por isso têm de ser amadas desde que estão na barriga da mãe, mas sobretudo depois de nascerem. Ser amado é ser ajudado a crescer, ao ritmo de cada um, fazendo desabrochar as capacidades específicas, a identidade “escondida” que o percurso dos anos irá preenchendo e construindo.

Libertar na criança a sua identidade não é uma tarefa fácil, mas é essa a missão dos adultos; serem os facilitadores do crescimento das crianças e não apenas os prestadores de respostas de conforto, alimentação e higiene.

Uma criança não é um boneco, que se exibe como um troféu. Muito bem vestido, lavado e cheiroso, mas que por sua conta, destrói o que o rodeia, não conhece regras nem limites. Activas, curiosas, as crianças têm de ser protegidas de riscos, porque a sua imaturidade assim o exige. Mas, para se crescer com saúde e sobretudo, quando se quer ajudar uma criança a crescer de forma equilibrada, os adultos têm de ser mais do que os cuidadores e os vigilantes do comportamento das crianças. Têm de manter uma relação pessoal, íntima, que facilite a descoberta do mundo, com ajudas concretas: a história contada ao colo, as explicações simples diante das flores do jardim, as tarefas partilhadas à volta da confecção de um bolo, são momentos únicos que criam laços invisíveis por onde passam o amor e o tempo que a criança precisa para crescer. Quando uma mãe ou um pai diz: “Já sabes comer a sopa, não precisas de ajuda!” liberta o filho e reforça a sua autonomia. Mas, se essa mãe ou esse pai estão cansados e, ao contrário dizem “dá cá a colher, porque a mãe está com pressa!”, é um retrocesso nessa aprendizagem, um passo atrás na capacidade já adquirida, por conveniência do adulto. Os pais estão por vezes mais preocupados consigo e alguns desejam ter filhos, não para os ajudar a ser pessoas, mas para satisfazer a sua própria necessidade de afirmação social. O que diriam os outros se não “tivessem filhos”?

A relação parental faz crescer a criança e transforma o adulto. Ser um colo, torna o pai mais protector; dar um beijo, faz uma carrancuda sorrir; responder a uma dúvida, aumenta a segurança e pode ser o princípio de uma importante conversa entre pais e filhos. Dificilmente se pode dar o que uma criança precisa e continuar a manter inalterados os hábitos de vida do adulto. Um homem que quer ser pai, mas não altera o seu quotidiano e não participa nas tarefas domésticas ou no cuidado às crianças, que nunca se levanta de noite para acalmar um filho com pesadelos e dificilmente pega nele ao colo para o sossegar, assume-se como um genitor mais do que como um pai.

Uma criança precisa de espaço para crescer e isso significa atenção, o mesmo é dizer, exige muito tempo aos adultos. Infelizmente ainda temos de recordar a carta dos direitos da criança porque, aqui e em muitos lugares do mundo, os adultos esquecem que não basta desejar ter um filho é preciso desejar ser pai ou ser mãe.

(publicado no Açoriano Oriental de 2 de Junho 2008)

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publicado por sentirailha às 23:24
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