Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Pela boca morre o peixe!

Infelizmente não só os peixes “morrem pela boca”. Muitos outros seres exageram, levados pela tentação de comer, pela precipitação inconsequente diante da possibilidade de viver um momento de prazer imediato.

No caso dos seres humanos, todos sabemos que o gosto, os sabores só são apreciados enquanto os alimentos vão da boca até à garganta. São breves segundos de prazer, em que se apreciam os aromas, se descobrem combinações e temperos e se aviva o paladar, de tal forma, que não raras vezes se fecham os olhos, para melhor apreciar a comida.

Degustar, como dizem os gastrónomos, é a arte de saber viver a experiência da descoberta e do sentir. A partilha de uma boa refeição pode ser o pretexto para uma boa conversa e se a culinária for típica de uma região, é certamente uma ocasião para descobrir a expressão de uma cultura, de uma comunidade. Comer pode não ser apenas a satisfação de uma necessidade básica e uma forma de combater a fome, mas uma fonte de prazer, uma ocasião de convívio e de descoberta.

A comida é mais do que o alimento, é também a expressão da diversidade de produtos e de temperos, de aromas e formas de cozinhar que identifica uma comunidade, uma família ou até uma pessoa. Mas o acto de comer pode ser uma forma de compensar e satisfazer outras necessidades, que não apenas a biológica. Há quem o faça na busca de um refúgio, porque está deprimido ou entende que a vida não lhe é favorável, busca no prazer de comer alguns segundos de emoção, sensações que provoquem uma satisfação imediata. Indiferente ao conceito de alimentação equilibrada, a comida torna-se numa armadilha de prazer; um veneno embrulhado em açúcar ou em sal; uma reserva calórica não queimada, que “aquece” a tristeza e contribui, pouco a pouco, para aumentar a inércia, a passividade e o sedentarismo.

Comer de mais em busca de prazer é uma tentação e uma fonte de desequilíbrio. Aos poucos a mente perde o controlo sobre o corpo, o desejo gera obsessão, a relação com os consumos substitui a relação com os outros e o prazer procura-se em segundos e não se dilata no tempo. Um passeio à beira-mar, uma tarde de leitura ouvindo os pássaros, dão lugar às jantaradas, a uns copos no bar da esquina e ao falso sentimento de prazer. O peixe mordeu o isco e tal é a sofreguidão que nem repara no anzol, até ao dia em que o não consegue evitar. Diabetes, problemas vasculares ou cardíacos, falta de forças e peso a mais, são algumas das consequências que o consumo alimentar desregrado vai criando, cada vez mais cedo, sobretudo em crianças e jovens.

Onde fica o meio-termo? Comer sempre foi e será uma fonte de prazer, de descoberta, porque a gastronomia enquanto expressão da identidade cultural, deve ser preservada na sua forma original. Todos reconhecem o valor dos produtos frescos, das confecções minuciosas, da arte de criar um prato, que faça de uma refeição uma viagem.

Será que temos de tornar a vida sem sabor para sermos saudáveis? Diz o povo que o que é demais não presta. E, em matéria de alimentação, essa é sem dúvida uma regra de ouro. Podemos comer de tudo, experimentar todos os produtos que a natureza e a arte de confeccionar podem propiciar, mas temos de saber parar! Porque pela boca morre o peixe e o exagero é o anzol disfarçado que não devemos ignorar.

(publicado no Açoriano Oriental de 9 Junho 2008)

publicado por sentirailha às 00:06
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