Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Escolher

Escolher é sinónimo de liberdade e, quem escolhe tem sempre de comparar, analisar e decidir entre mais do que uma realidade. E é nesse entrecruzar de possibilidades, que se diferenciam as pessoas.

Comparar com o quê? Há escolhas difíceis de fazer. Uns procuram no passado situações semelhantes, reagem a experiências vividas, outros rejeitam as opções já tomadas por outros ou simplesmente preocupam-se com o que pensam. Por isso, no acto de escolher, é fundamental saber em que se acredita. O que é importante? O que se procura encontrar naquilo que se escolhe?

Escolher é atinar aos poucos com um percurso que se faz dia após dia, mas que há horas em que parece estar submerso em nevoeiro. Apenas se vêem as pontas dos pés e só caminhando devagar se consegue descortinar a linha de referência. Noutras horas, o caminho surge claro, límpido, até é fácil fazê-lo em passo de corrida. Escolher nem sempre é fácil. Que o digam os jovens a terminar o terceiro ciclo que têm de se decidir por determinado rumo académico. Um curso superior ou um curso tecnológico? Uma escola secundária ou profissional? Estudar ou parar de o fazer e procurar trabalho no mercado de emprego? Antes de se fazer uma escolha, há sempre uma pergunta que se formula. Mas afinal o que quero seguir, ou por onde devo ir ou o que fazer para me ser mais eu próprio? Difícil decisão quando se desconhece o que fica ao fundo da estrada e apenas se vislumbra alguns metros. Mas será que terei de voltar para trás e retomar a encruzilhada inicial?

Mesmo que na vida haja escolhas inadequadas e que, aparentemente tudo pareça recomeçar do zero, nada é como dantes. A experiência é sem dúvida uma mais valia para quem tem de escolher. Pena é que por vezes não se dá tempo à aprendizagem e se procure encurtar etapas. Hoje em dia é frequente falar-se da dificuldade que um jovem encontra para arranjar emprego, mesmo depois de ter frequentado um curso superior. Escolher entre não ter emprego e fazer voluntariado para ganhar experiência, não é fácil, quando se investiu no diploma como numa conta bancária, de onde se espera receber juro. Escolher entre trabalhar ou aumentar a sua preparação académica e técnica, pode significar ter de estudar depois do emprego, investir em qualificações que nem sempre garantem melhores posições, mas que consolidam uma experiência que qualifica o trabalho que se desenvolve. Quem escolhe sem estar orientado, acaba por nunca atinar. Dá voltas em vão, perde-se no labirinto da vida e sobretudo, perde tempo, o que significa, perder oportunidades de viver a vida com sentido.

Aprende-se a escolher, mesmo que a criança seja condicionada pelos adultos nessa tarefa. E nessa aprendizagem o mais importante é definir prioridades e hierarquizar realidades ou objectos, por graus de importância e sobretudo, de acordo com valores de referência. Esforço ou inércia; interesse pessoal ou colectivo; trabalho ou prazer; resultados imediatos ou no futuro, são algumas das ambivalências que o acto de escolher implica.

Escolher. Afinal a liberdade é sempre relativa, porque só escolhemos se pensarmos e quando o fazemos, limitamos, definimos possíveis, ponderamos o que os outros esperam de nós e acabamos por reduzir as opções de escolha. Mas afinal, escolher é encontrar-se consigo próprio, através da relação com o mundo e com os outros.

(publicado no Açoriano Oriental de 14 de Julho de 2008)

publicado por sentirailha às 21:59
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