Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Num mês sombrio, o sol também brilha

 

Há meses de sol, meses de chuva, meses de frio e outros que apenas são sombrios. Pode o sol brilhar e o povo dizer que o verão regressa por altura do São Martinho, mas nada parece alterar o espírito que marca o mês de Novembro, desde sempre associado ao culto das almas.

As culturas tradicionais utilizam imagens simbólicas para estabelecer a relação espiritual que liga os que partem e os que ficam: o fumo, as cordas, as pontes, o arco-íris, os cruzamentos onde ainda hoje se vêem os azulejos das “alminhas”, são tudo imagens e símbolos utilizados em rituais de culto aos mortos.

No mês das almas, o povo relembra a morte como parte da vida e os mortos como protectores da comunidade dos vivos. Come-se o milho dos mortos, visitam-se os cemitérios e limpam-se as campas; em outros povos, até se fazem refeições nesse local. Relembrar a condição humana, limitada, frágil, efémera, é importante, para melhor se viver.

Afinal, o que faço aqui? Qual é a razão de ser para os dias que me são dados como crédito.

Dizia-me alguém, todos recebemos um depósito diário de 86400 segundos, que podemos utilizar bem ou mal. Mas, se os desperdiçarmos perderemos esse saldo; ficaremos impedidos de gastar o resto do tempo, que não soubemos utilizar em cada dia.

Se queremos enfrentar melhor a morte, que a tantos assusta, fantasma que leva os que mais amamos, temos de encontrar objectivos para investir esse depósito diário de vida, única garantia que permite enfrentar o mês sombrio de Novembro.

Afinal, apesar das nuvens, dentro de cada um de nós há um sol, uma razão para viver. Apesar da morte, que marca as histórias de vida com perdas, que relembra sofrimentos; todos os dias nascem pessoas; à nossa volta há quem sorria quando lhe dizemos bom-dia; há quem espere pela firmeza da nossa persistência para não desistir de viver e de lutar.

Quem não encontra nesse depósito de vida, nesses milhares de segundos uma razão de ser para investir, um tempo para ser, acaba corroído pela solidão, pela preguiça ou pela alienação, e fica entregue a si, contabilizando os segundos que se escapam entre os dedos, entregue ao conselho dessas vozes que dizem: “não vás; não saias de casa; deixa-os fazer; porque te preocupas? Afinal tens 86400 segundos só teus, para que os vais gastar com os outros? deixa-te ficar aí, quieto”. I

lusão de quem julga que a conta da vida aumenta quando a não gastamos.

É nessas horas, quando se desiste de viver, que o medo da morte toma conta e agarra esses avarentos sós, que se lamentam sem nada fazer, que choram o passado, de olhos fechados diante do presente.

Afinal o mês de Novembro, apesar de sombrio, pode ser um mês para festejar a vida, se o culto das almas nos fizer lembrar que quem já partiu cumpriu a sua existência. A cada um resta um tempo, mais ou menos longo para investir. E, se esse tempo for bem empregue, um dia, uma hora ou até um minuto podem fazer a diferença, na minha e na vida de outros.

Afinal, no mês de Novembro, o sol também nasce todos os dias.

(publicado no Açoriano Oriental de 3 de Novembro 2008)

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publicado por sentirailha às 10:40
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