Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Mudar de vida

Somos confrontados com a necessidade de mudar de vida, quase sempre quando ocorrem rupturas relacionais, no emprego, na família; quando por motivos de saúde, afectivos ou outros, parece existir um impasse que exige uma reorientação.

Quando se analisa esta exigência de mudança, facilmente se percebe que esses acontecimentos não são as causas directas da mudança de trajectória, apesar desses momentos exigirem uma reflexão acrescida. Afinal, o que tenho sido até agora, que trajectória percorro e porquê?

Quem faz de um acontecimento da vida uma oportunidade de mudança, revela ser capaz de perspectivar o futuro, integrando o passando no presente. Mudar de vida implica sempre decidir-se por um caminho diferente daquele que, aparentemente parecia ser o seu. Como referia o sociólogo Marc-Henry Soulet, o indivíduo é confrontado com uma bifurcação na sua trajectória, a necessidade de alternância, que implica uma situação decisória, o que poderá coincidir com uma despedida, uma ruptura, um divórcio ou uma simples resposta negativa ou afirmativa perante um convite ou um desafio.

Mas se esse momento parece decidir uma vida, na realidade, as mudanças carecem de um tempo de transição, uma fase de adaptação quase sempre marcada por forte instabilidade, que acaba por se constituir como um separador que define a mudança de capítulo, que marca o “virar de página”. Por exemplo, quando alguém se divorcia num determinado dia, na realidade, a relação já vinha se desconstruindo; há muito que se vinha divorciando. A sentença do juiz é apenas um momento nesse processo de separação e desencontro que foi alterando a relação conjugal e criando um contexto favorável à ruptura.

Mudar de vida é sempre um espaço e um tempo de abertura, que permite a alteração de referências e cria condições para que se façam novas aprendizagens. Um tempo de latência, entre vidas ou tempos de vida, onde só aparentemente o passado deixou de determinar o presente e o futuro se abre como espaço criativo.

Mudar de vida implica afastar-se de esquemas instalados, abandonar rotinas não reflectidas e deixar de considerar como inalteráveis posições predefinidas. “Eu sempre fui assim, eu nunca fiz outra coisa, não sei como fazer de forma diferente”, são atitudes de resistência que fazem barreira às mudanças de vida e criam alguma dificuldade de adaptação perante as constantes transformações da sociedade em que vivemos.

Se há qualidade que se exige hoje em dia, mesmo quando a idade parece ser uma garantia de estabilidade, é a disponibilidade para a mudança, seja ao nível das tarefas, dos locais de trabalho ou de residência, das relações de género, para não falar da incorporação das novas tecnologias que alteram a vida quotidiana.

Somos desafiados em permanência a testar a nossa capacidade de adaptação e de aprendizagem. O que somos agora projecta-se no que queremos ser amanhã; o que sabemos hoje é sempre limitado face ao muito que gostaríamos de saber.

Mudar de vida, bifurcar numa trajectória que parecia linear, pré-definida, é sempre criar uma abertura, mesmo que isso possa implicar um tempo de indefinição e alguma incerteza; logo mais, virá a estabilidade, o reencontro consigo e com os outros.

(publicado no Açoriano Oriental de 1 Dezembro 2008)

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publicado por sentirailha às 23:28
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