Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Nome de rua

A história de um povo também pode ser contada através dos nomes das ruas das suas cidades, aldeias e vilas.

Os endereços, que escrevemos em documentos, formulários, remetentes e destinatários de correspondência, retractam características de um território, sinalizam acontecimentos marcantes e, em muitos casos, são nomes de pessoas, cujas histórias de vida a grande maioria dos cidadãos desconhece.

A toponímia representou, durante séculos, uma forma de registar o conhecimento empírico sobre as características dos lugares, como revelam designações do tipo: “a Pedreira”, “o Barreiro”, “as Areias”. Muitos outros topónimos nasceram da vida económica e das profissões dos moradores ou da localização estratégica dos arruamentos: a rua da igreja, do cemitério ou da escola, designam um local e um ponto de referência, o que facilita o sentido de orientação para quem não é da terra.

Hoje os nomes das ruas são cada vez menos o reflexo deste conhecimento do espaço ou mesmo da vida social, cultural e económica que nele ocorre. A atribuição de um topónimo é, sobretudo, entendida como uma forma de homenagear post mortem, aqueles que se destacaram em vida.

Homens de negócios, escritores, reis, padres e políticos dão nome a muitas ruas, avenidas e canadas; algumas, rebaptizadas com topónimos que reflectem a sucessão de regimes políticos ou de sensibilidades. Veja-se o exemplo da ponte de Salazar, hoje ponte 25 de Abril.

Noutros locais, a designação popular é substituída por um topónimo de homenagem, como acontece com a Rua da Louça que foi rebaptizada Rua Manuel da Ponte ou a Rua do Valverde que, na realidade, se denomina, Rua Manuel Inácio de Melo.

Entre os muitos nomes de ruas, que evocam pessoas ilustres, poucas mulheres. A história, infelizmente, ainda se escreve pouco no feminino. Não se reconhece qualquer mérito extraordinário a quem levou a vida inteira cuidando dos seus ou educando os filhos dos outros; profissões desde há muito desempenhadas por mulheres na área da saúde, do ensino ou do serviço social, não são reconhecidas publicamente como de relevante mérito. Ao invés, a produção económica ou literária, os cargos políticos ou o desempenho do sacerdócio são domínios de actividade, sobretudo masculina, que com muita frequência constituem topónimos.

Nome de rua! Uma placa, um endereço ou uma homenagem que os vivos prestam a quem fez história.

Nos arruamentos do Parque Industrial foram atribuídos, recentemente, vários topónimos, homenageando um conjunto de empresários e homens empreendedores da “revolução industrial” açoriana da primeira metade do séc. XX, como referiu o Dr. Augusto d’Athayde.

Entre eles consta o nome do meu avô, Rolando Sousa Lima, um homem que viveu na empresa fundada por seu pai a sua própria vida pessoal. Entre a casa e o escritório, uma passagem, uma porta; entre a família e os negócios, o mesmo nome e uma dedicação exclusiva.

Por sua vontade, não quis ser enterrado em jazigo e o seu nome não consta nas placas do cemitério, mas a partir de agora é “nome de rua”.

(publicado no Açoriano Oriental)

 

publicado por sentirailha às 00:53
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