Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

A insegurança que se combate e se cria

Parece uma contradição, mas a insegurança que se combate, seja punindo, prevenindo ou evitando com defesas de vária ordem, na realidade é um fenómeno que não tem geração espontânea, não é uma fatalidade, mas uma consequência, um resultado.

Se por um lado queremos todos viver com algum bem estar material, ter acesso ao consumo e defender a liberdade de expressão, comportamento e decisão, o certo é que a sociedade que daí resulta, sobretudo, quando deixa de poder controlar a mobilidade dos seus membros, contém aspectos positivos, mas também os seus lados mais perversos.

Franjas da população vão ficando fora do sistema educativo ou pelo menos não apreendem do mesmo modo os modelos normativos que este transmite; outros, por não terem acesso ao mercado de trabalho e por viverem em contextos pessoais e familiares desestruturados, buscam uma identidade pela negativa. Não que sejam pessoas desequilibradas do ponto de vista psicológico, o certo é que a sociedade moderna que afirma como referência, a qualificação, a produtividade, a excelência, o conforto e o respeito pelas regras de civismo, não é capaz de integrar todos os seus membros.

Particularmente fragilizados, os que perdem emprego, vivem relações familiares conflituosas e são vítimas de violência ou abandono; os que são mal-amados ou perderam o amor-próprio e a dignidade, os cidadãos que não têm laços que os identifiquem e enquadrem, em particular, do ponto de vista dos afectos, vivem num terreno marginal onde tudo parece ser permitido: partir, destruir, roubar, importunar e violentar; agredir, maltratar, são formas de estar em relação, mesmo que esta se faça pela negativa.

São vários os factores que concorrem para a produção deste tipo de indivíduos, causadores de insegurança, receio e até alguma fobia. Desde as alterações ao espaço urbano, perdendo-se o espírito de aldeia onde todos se conhecem e se cumprimentam, onde a solidariedade é espontânea; passando pela desigualdade de capitais culturais, meios económicos e até origens étnicas, acabando na falência das relações afectivas e sociais que identificam positivamente, como é o caso da família e do emprego, tudo pode, conjugado, contribuir para a produção de comportamentos desviantes, delinquentes e criminosos.

Culpabilizar apenas os actores desses comportamentos, punir com penas de cadeia e limpá-los das redondezas e sobretudo da vista dos outros, é uma estratégia que não pode ser utilizada para situações menores, face à necessidade de isolar aqueles que revelam ser um perigo para a paz pública. Mas porque produzimos cada vez mais delinquentes, pessoas perturbadas, jovens toxicodependentes ou potenciais alcoólicos?

Essa é sem dúvida uma questão que nos deve preocupar e para a qual, não há dúvida, é necessário rever as relações que estabelecemos com todos esses indivíduos, seja ao nível da família, da escola, da saúde, dos poderes locais, do emprego ou outras. A injustiça, a desigualdade de acesso, a estigmatização, são mecanismos de defesa com retorno. Mais tarde ou mais cedo traz de volta os injustiçados, os discriminados, marginalizados ou excluídos, agindo com agressividade, violência, desrespeitando os limites e as regras, mergulhados em consumos excessivos e alienados do mundo dito “civilizado” do qual desistiram de pertencer.

E não se julgue que este retorno vem apenas dos mais desfavorecidos, mas antes é o resultado das relações sociais marcadas pelo esquecimento, a educação sem regras, a libertinagem descontrolada, a ausência de firmeza e o “deixa andar”.

A insegurança pode-se combater com grades, alarmes, polícia, penas e multas, encarceramentos e detenções transitórias, mas irá manter-se enquanto as vítimas não forem só os que carecem de protecção, mas forem também os que gerando e provocando a insegurança são eles próprios vítimas de uma sociedade que os constrói, para depois combater as suas práticas.

(publicado no Açoriano Oriental a 21 de Janeiro de 2008)

 

publicado por sentirailha às 20:41
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Politiquices à parte, a verdadeira política

Politiquice é o que fazem aqueles que tudo agitam mas que nada decidem; é o que se diz num murmúrio, no maldizer e nas análises demagógicas, onde tudo se critica só porque foram outros a fazer e nada faz sentido, porque foram outros a planear.

A verdadeira política faz-se de análises objectivas e de reflexões sensatas, pondera todos os factores, tem em conta a história e os actores que a vão construindo. A política que transforma e responde às necessidades dos cidadãos, nunca é estática, mas sendo crítica não destrói o passado, antes sabe analisá-lo para melhor definir estratégias; contextualizando, procura linhas de força e reconhece pontos fracos.

Não basta dizer, “deviam ter feito isso e, se não o fizeram agora é tarde, não é possível remediar”, porque a política do “bota abaixo” é sempre sinónimo de retrocesso. Apregoando fazer melhor, a politiquice faz o discurso da destruição para então renovar, como se a história tivesse de ser reescrita de cada vez que mudam os actores.

As mudanças só são eficazes se reabilitarem e, sem condenar as opções anteriores, forem sinónimo de esperança e renovação. Corrigir trajectórias não é refazer caminhos, mas reanalisar o mapa. Por isso, quando se ouvem os políticos do maldizer “atirar a tudo o que mexe”, raramente se entende o que fariam se tivessem sido eles a decidir. Dizem que está mal, que nada se aproveita, mas não assumem uma solução alternativa.

A politiquice não constrói um pensamento estruturado, não revela valores, princípios estruturantes, só alimenta comentários, conversas de café, um diz que diz que congrega descontentes e, sobretudo, faz coro com as lamentações dos que choram a perda de privilégios injustos.

A politiquice é sempre uma opinião redutora que não esclarece. Funciona rasteira e por isso pode ser baixa, desonesta e até ofensiva. Mas com tudo e por tudo isso, consegue agitar, confundir e baralhar. Não raras vezes, quem faz da sua actuação política uma forma de politiquice apenas quer derrubar um outro ou “eles”, porque não são da mesma cor e não fazem parte do nosso grupo, moram no bairro vizinho ou defendem uma associação rival. Para os politiqueiros, peritos em politiquices, os nossos são sempre os melhores, mesmo quando jogam mal e cometem faltas.

Na política verdadeira o discurso tem outro nível, acolhe todas as opiniões válidas e analisa os contraditórios; alimenta-se de valores e constrói pensamentos estruturantes. Atentos ao mundo, os verdadeiros políticos são capazes de admitir os erros cometidos e as orientações menos ajustadas; vivem permanentemente inquietos, em busca de explicações e de razões, e cultivam a arte da reflexão que fundamenta as escolhas mais acertadas.

A politiquice não constrói futuro, nem abre caminhos novos, antes cria atalhos, becos sem saída, onde tudo parece ficar encurralado. Nada se resolve, mas enquanto as pessoas não se apercebem que o que afirmam não faz sentido, criam a ilusão de um caminho possível, apontando em permanência os defeitos e os desajustes da estrada que pisam.

A verdadeira política tem uma visão prospectiva, sem deixar de ser vigilante do presente, aponta estratégias que dão forma ao futuro.

Politiquices à parte, é preciso discernir a verdadeira política e os políticos de verdade, aqueles que estruturam e consolidam o futuro e não se alimentam das aparências do presente.

(publicado no Açoriano Oriental a 14 de Janeiro 2008)

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publicado por sentirailha às 19:29
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Do lado do não fumador

Para quem não é fumador, nunca foi e não gosta de fumar, a nova legislação em vigor desde o dia 1 de Janeiro, proibindo os fumadores de permanecerem em espaços fechados, sejam restaurantes, lojas ou outros estabelecimentos, não deixa de ser uma grande vantagem. Menos poluídos, esses espaços irão tornar-se mais agradáveis.

Sem ter de respirar o fumo dos cigarros, charutos ou cigarrilhas, a roupa vai poder manter o cheiro a perfume. Acabaram-se os casacos tresandando a tabaco, o cabelo cheirando a fumo e aquele ardor nos olhos.

Para quem não é fumador, nada melhor do que poder respirar um ar menos poluído.

Mas, se com esta nova lei melhora o ambiente dos que não fumam, o mesmo não parece acontecer para os próprios fumadores. Confinados a espaços exíguos ou rodeando uma coluna com cinzeiros num canto de uma sala de bagagens, os fumadores e as fumadoras parecem condenados a se intoxicarem uns aos outros, envoltos numa coluna de fumo, agarrados a um cigarro que levam à boca de forma rápida e ansiosa, até o consumir. “Foram duas horas de viagem sem fumar”, “uma reunião inteira sem poder pegar num cigarro, quase que nem conseguia pensar”.

Apesar da melhoria evidente do ambiente, as novas exigências legais ao empurrarem os fumadores para recantos, varandas e esplanadas podem vir a contribuir para o aumento dos índices de ansiedade e até dos conflitos entre fumadores e não fumadores. Na hora do café, uns afastam-se e outros ficam junto ao balcão; na hora da conversa, quando o jantar já não é mais do que troca de opiniões, a interrupção acontece, porque o cigarro apetece, até para descomprimir da discussão. Lá se vai o fio à meada, porque o levantar da mesa arrefece a troca de argumentos e tudo parece deixar de fazer sentido quando o fumador regressa, aliviado e pronto para recomeçar no ponto em que tinha deixado o assunto.

Até que todos se habituem a este novo enquadramento legal, vão acontecer muitos momentos de tensão, discussões e até algumas gripes; fumar na varanda em pleno inverno, em alguns casos, à chuva, ao frio ou com neve, não deve ser nada agradável.

A lei protege o cidadão mas acaba por excluir aqueles que, apesar dos alertas inscritos em letras garrafais sobre os maços de cigarros, insistem em fumar, provavelmente porque necessitam de o fazer.

As empresas que vendem programas ou planos terapêuticos visando o abandono desta dependência aproveitam para intensificar as campanhas que prometem a “libertação” do tabaco ou pelo menos a redução do consumo.

Todo este esforço em reduzir o consumo para promover a saúde faz pensar porque não existe um quadro legal e uma atitude anti-consumo, tão intensa e veemente, no que diz respeito ao álcool? Faz algum sentido que a venda de tabaco esteja condicionada a um distribuidor bloqueado e tenha passado a ser interdita a menores de 18 anos e, em relação às bebidas alcoólicas, qualquer adolescente com 16 anos possa consumir em bares e ter livre acesso às bebidas de elevado teor alcoólico que se acumulam nas prateleiras dos supermercados?

O cigarro pode matar e o cancro é sem dúvida uma doença que se agrava com esta dependência, mas o consumo excessivo de álcool não é menos negativo para a saúde, incluindo também o cancro, e tem efeitos extremos nos mais jovens.

Se fomos capazes de criar um dia sem tabaco, colocar avisos sobre os maços e agora decretar a interdição de consumo em espaços fechados, para quando a criação de um dia “sem álcool”? Talvez fosse um bom princípio!

 (publicado no Açoriano Oriental de 7 de Janeiro 2008)

publicado por sentirailha às 00:20
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