Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Diferentes

 

A descoberta do genoma humano revelou uma matriz comum da humanidade e em nenhuma das suas componentes foi encontrada uma causa directa para a diferenciação do que designamos por raças.
Na realidade, os fenotipos ou traços físicos, como são, por exemplo, a cor da pele, o formato do rosto, a estatura, o tipo de cabelo, não são estruturantes do ser humano mas o resultado de um longo processo, de milhões de anos, de adaptação ao meio.
O que nos distingue, enquanto pessoas, comunidades, são os percursos de vida, o contexto étnico, social, económico ou outro, que nos identificam. São as línguas que não partilhamos, os costumes ou as tradições que nos enraízam numa comunidade ou os artefactos que nos habituamos a ver como parte do universo construído que nos rodeia.
O que nos distingue nunca nos deveria separar.
Infelizmente, evitamos os deficientes, recusamos a partilha com quem não compreendemos e resistimos perante a integração da diversidade na escola ou no bairro onde moramos. Como se a diferença estivesse no outro e não na relação que com ele se estabelece. Como se o problema do surdo fosse dele e não dos ouvintes que não falam a língua gestual ou o isolamento dos deficientes motores não estivesse relacionado com as barreiras arquitectónicas que alguns municípios teimam em não alterar.
Levamos séculos, julgando que o mundo acabava no horizonte do mar.
Só quando os navegadores trouxeram objectos e o testemunho de que havia mais mundos, tomamos consciência de que existiam outros povos, que alguns se apressaram em considerar inferiores, primitivos.  
Passados tantos anos, as comunidades do ocidente são tudo menos homogéneas. A diferença não vem de fora, mas estrutura as cidades, as famílias, o mundo do trabalho e as escolas. As línguas são hoje partilhadas e o mundo perdeu as suas fronteiras na internet.
A cidadania implica reconhecer a diversidade, não como um problema mas uma fonte de enriquecimento, que alarga as fronteiras do conhecimento e relativiza a normalidade que alguns julgam ser ou representar.
Afinal não são os outros que são diferentes, mas o modo como os tratamos.
Porque a diferença, quando isola ou discrimina, somos nós que a fazemos.
 
 (publicado no Açoriano Oriental, 16 de Novembro 2009)
publicado por sentirailha às 18:39
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Marcas no tempo

 

O tempo é o que nele vivemos e o que dele fazemos.
O tempo, não é apenas uma sequência de minutos, dias ou meses, que acumulamos em anos e que uns festejam efusivamente e outros procuram sem sucesso esconder. A vida transporta-nos numa sequência inevitável de experiências que vão marcando o mapa pessoal, forçosamente limitado, onde desconhecemos as fronteiras sem as podermos negar.
O tempo é o que dele fazemos e, por isso, a vida é um percurso que trazemos incorporado no presente, um passado que nos confere experiência e maturidade e nos deixa marcas, algumas associadas a perdas, a sofrimento, outras feitas de grandes alegrias ou pequenos sucessos.
A memória guarda mas também limpa muitas dessas experiências, por vezes recordadas num reencontro de amigos ou de regresso a um lugar, que nos situam num mundo de espaços e de pessoas, nesse mapa de afectos que cada grava na sua existência.
O percurso que vivemos, não são datas mas relações, que nos ajudam a descobrir quem somos ou quem não queremos ser, porque também há pessoas que nos fazem dizer não; não vou por aí, sou diferente, penso a vida com base em outros valores.
Tal como a teia num tear, vamos ganhando consistência sempre que a trama se aperta e as experiências se acumulam. Transportamos no presente o passado que incorporamos. Por vezes, folheando um álbum de família, ou recordando uma data de calendário, mergulhamos nesse tempo e recordamos com nitidez momentos, que mudaram as nossas vidas. O nascimento de um filho é um desses momentos marcantes onde se mistura a perda com o ganho, e se partilha uma ligação íntima e até física.
Podemos esquecer muitos encontros que a vida nos proporciona e desfazer muitos dos laços que estabelecemos, mas dificilmente esquecemos o primeiro encontro que estabelecemos com um filho e a descoberta de emoções que desconhecíamos ser capazes de sentir; um laço que nos amarra para a vida, um nó, que nunca mais conseguimos desatar.
O tempo é o que nele vivemos e o que dele fazemos.
O passado constrói o percurso mas não pode, nem deve, destruir a esperança ou o ânimo de que necessitamos para enfrentar o presente. Afinal, cada dia é um tempo novo, que fazia parte do futuro até acordarmos.
(publicado no Açoriano Oriental de 9 de Novembro 2009)
 
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publicado por sentirailha às 18:36
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A dignidade não tem preço

Dar 80 euros a um idoso é um ultraje. É um insulto. Em vez de dar os serviços que eles precisam, seja o apoio domiciliário, o lar, o centro de dia ou a residência. Isso é que eles precisam.Eles não precisam de 80 euros para ir beber cervejas, para ir comer doces, que são diabéticos e ficam doentes, para serem roubados pelos filhos”. (palavras de Maria José Nogueira Pinto, numas Jornadas do PSD)

 
Quem fala dos apoios aos idosos desta forma tem da velhice uma visão miserabilista e pouco digna.
Os idosos não são essas pessoas acabadas, doentes, que precisam de ser armazenadas em lares, porque sem autonomia, vivem de ajudas, esmolas ou dos serviços de apoio ao domicílio, como se fossem prisioneiros da idade.
A velhice é ou pode ser uma etapa renovada da vida.
Desobrigados das exigências dos empregos ou do cuidar dos filhos, muitos, idosos, felizmente, reencontram o gosto por aprender ou pela leitura, mantêm uma actividade física, redescobrem o prazer do convívio com os amigos e frequentam a universidade, o centro de dia, o ginásio ou a piscina.
Esta é a etapa da vida em que os cidadãos abandonam o palco, deixam de se preocupar com o rigor dos papéis e sobem ao balcão para observar os novos actores. Sensatos, dominando a experiência de quem já representou muitas vezes, dão conta das falhas, dos conflitos latentes, das tensões e são óptimos conselheiros.
Infelizmente, muitos dos que se afastam, porque a doença e o cansaço os obriga a recuar perante as luzes da ribalta, ironia do destino, vivem hoje esquecidos de quem lhes ocupou o lugar. Sustentaram a família, quantas vezes retirando do seu prato a comida que os filhos precisavam mas, quando lhes faltaram os meios, não tiveram outra alternativa se não recorrer às ajudas do Estado. “Nem se imagina o que fica na farmácia!”
Ouvem-se vozes cansadas em torno de uma mesa de sueca. Naquele tempo os patrões não descontavam para a segurança social e muitos tinham de trabalhar quando ainda usavam calções, matando os sonhos de ser alguém, diferente dos pais.
Viver é envelhecer, por isso, a dignidade que a vida nos merece é único critério com que devemos apoiar a velhice.
 
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publicado por sentirailha às 22:47
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