Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

“Amo-te” em dia de São Valentim

O comércio foi invadido por uma onda de corações, por conta do dia de São Valentim. Pobre do santo! É roupa interior, bonecos de peluche, canecas e outros objectos decorados com corações, alguns com diabinhos e mensagens, supostamente atrevidas, que convidam ao encontro, exageram nas palavras e servem de suporte para dizer: gosto de ti, amo-te, I love you!

Poderá não ser necessário um dia dedicado ao namoro, à paixão e aos apaixonados, mas é evidente que os casais precisam de encontros, intimidade e partilha. Apanhados nas vagas de uma sociedade que absorve o tempo necessário para construir o “nós”, há quem desista da relação a dois, por achar que esta destrói o seu “eu”. Em 2009 foram 789 os divórcios nos Açores, num ano em que se realizaram 1207 casamentos e a taxa de divórcio atingiu 3,2‰, a mais elevada do país.

Talvez não haja uma correlação directa entre falta de comunicação no namoro e risco acrescido de divórcio, mas este quase sempre resulta de um afastamento progressivo no casal. Alguns até namoraram durante muito tempo, anos, mas dão por si a viver como dois estranhos.

Namorar é dar tempo para conhecer e descobrir alguém, com quem é possível antecipar cenários, partilhar dificuldades e pensar nos desafios que se colocam, quando se vive a dois. Namorar, é mais do que manifestações de carinho, nem sempre verdadeiras e superficiais, mas implica revelar fragilidades e aprender a reconhecer o que torna uma pessoa amorável, diferente. Namorar é deixar-se cativar por essa diferença.

Oferecer almofadinhas de peluche ou flores embrulhadas em celofane com corações, são gestos simpáticos, mas que podem mascarar o essencial que constrói um casal. Quem insistir nesse registo cor-de-rosa, muito provavelmente está a perder muitas oportunidades para conhecer a pessoa com quem namora. O mais certo é que será incapaz de permanecer nessa relação, quando confrontado com uma doença, faltas de dinheiro, desentendimentos ou outras dificuldades.

O namoro também é um tempo para se aprender a amar o lado sombra do outro, conhecer e compreender os defeitos da pessoa com quem se namora.

Namorar é aprender a ceder do eu, para construir um par; é descobrir-se como pessoa através da relação a dois; sentir-se feliz por partilhar erros e sucessos do quotidiano com alguém e ser capaz de sonhar um projecto de vida comum. Quando a relação a dois não integra estes ingredientes, o mais certo é falhar e romper, perante uma dificuldade maior. Não será por acaso que um terço dos divórcios acontece nos primeiros cinco anos de casamento e que quase metade acontece antes dos nove anos de vida conjugal.

Se falhar a comunicação sincera e verdadeira no namoro, de que vale dizer “amo-te”, numa almofadinha vermelha ou num peluche sorridente, em dia de São Valentim?

(publicado no Açoriano Oriental, 14 Fevereiro 2011)

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publicado por sentirailha às 11:32
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Maltratar os pais

O fenómeno da violência doméstica foi durante demasiado tempo silenciado, escondido, ignorado. Fazia parte da vida privada, achavam alguns; um problema das vítimas, pensavam outros.

Aos poucos o véu do silêncio e da indiferença foi sendo retirado, primeiro revelando os maus tratos que são infligidos contra as crianças, depois iluminando os casos de muitas mulheres e mais recentemente, fazendo notícia sobre a realidade dos mais idosos, também vítimas da violência doméstica.

Quando se analisam os contornos da violência sobre os mais velhos, verifica-se que esta é sobretudo perpetrada por filhos, filhas, genros ou noras. Vivendo na dependência desses familiares, quantas vezes para poder sobreviver, ter um tecto e alguns cuidados, há idosos que calam a violência com que são tratados.

Sujeitos às agressões verbais, abuso de poder, furto dos seus bens materiais, incluindo o pouco dinheiro que recebem de pensões, esses idosos silenciam, sofridos, por medo de represálias de alguém, que lhes é muito próximo. Fica sempre uma réstia de afecto por esse filho que grita, escarnece e desrespeita.

Uma réstia de carinho por quem criaram e viram crescer, a quem deram tudo: tempo, comida e oportunidades, que tiravam à própria vida, para garantir o bem-estar da família. Afinal, não valeu de nada. Agora que precisam de apoio, presença, ajuda, estão à mercê das ofensas e agressões desses que ajudaram a crescer.

Ninguém tem o direito de ser maltratado. Diz a canção que “ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém”. Por isso, também não é um dever de mãe ou de pai, desculpabilizar um filho que agride, rouba, explora e se aproveita da fragilidade, da dependência dos pais, quando estes estão cansados devido à idade ou à doença.

Dizem as associações de apoio às vítimas que as denúncias de violência sobre pessoas idosas têm vindo a aumentar. No relatório de segurança de 2009, são 7% os pais, madrasta ou padrasto que denunciaram ser vítimas de violência.

Mas quantos não haverá que ainda se escondem no silêncio dos seus quartos, agarrados a um terço, debaixo de um xaile, embrulhados numa manta à espera de sentir o calor que falta nas relações familiares.

Talvez possamos aumentar a denúncia destes casos, com a ajuda dos vizinhos e amigos, das funcionárias que prestam cuidados ao domicílio, da assistente social ou do médico de família, onde essas pessoas recorrem com frequência. Por seu intermédio, podemos dar visibilidade, voz, à violência sobre os idosos. E, assim, libertar essas pessoas de relações de proximidade agressivas. Mas, acima de tudo, a denúncia deve servir à consciencialização da sociedade, para que sejam punidos aqueles que abusam da força, da condição de activos ou do simples facto de não respeitarem os mais velhos, que por eles se sacrificaram.

O amor é um laço que aproxima, liga e favorece a interdependência. Quando o amor gera dependência, perdeu sentido; transforma-se em medo e dá lugar à sujeição.

Denunciar essas situações, é fazer prova de liberdade, de respeito pela dignidade própria.

Não podemos aceitar que haja agressores que vivam impunes, gozando uma pertença felicidade a que não têm direito. Ninguém pode ser livre, feliz, se espezinhar a liberdade dos outros e silenciar a voz de alguém.

(publicado no Açoriano Oriental, 7 Fevereiro 2011)

publicado por sentirailha às 19:57
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Tocar a alma

A alma mora algures no ser humano. Não há máquina de raio x, ressonância magnética ou auxiliar de diagnóstico que possa registar a forma da alma, a força do espírito ou a essência que mantém um corpo vivo e dá sentido, cor, emoção ao ser humano, tornando-o pessoa, mais do que indivíduo.

A alma é essência, espírito, que qualifica as relações que fazem a história pessoal. Por isso, dizemos de alguém que teve ou tem alma açoriana, micaelense; reconhecemos noutros uma alma de artista ou de poeta.

Viver com alma é sentir, de modo próprio, o mundo que nos envolve, as cores da paisagem, as sonoridades, os sabores e as emoções.

A música quando mergulha na história de um povo e bebe nas suas raízes, sonoridades e palavras, faz vibrar a alma como um abraço que envolve a identidade de um povo. Vibram as fibras dessa essência que não conhecemos a forma, mas que sentimos; ressoam as emoções, na mente e no coração, como se entrasse nas veias um qualquer soro revigorante.

A música tradicional, quando é construída a partir da essência de um povo, faz vibrar a alma, desperta emoções genuínas e provoca um sentimento de pertença e fraternidade naqueles que com esse povo se identificam.

A música tradicional açoriana, recriada de forma exemplar no último disco de Helena Oliveira, Essências Açores, fez vibrar a minha alma de açoriana. Tocou no mais profundo do meu ser, nos traços da minha identidade, como se fosse um fato à medida, que sempre esteve lá para mim, mas que ao mesmo tempo, me recorda quem sou, onde estou e porque vivo nestas ilhas que adoro.

Estas “Essências” beberam na seiva dos açorianos a musicalidade que nos torna diferentes, iguais a nós mesmos e nos dá um lugar no mundo. Mas, mais do que isso, esta obra faz da Helena Oliveira, uma intérprete de excepção, que coloca na voz, a alma de todos nós e nos transporta para um mundo de referências partilhadas, uma comunidade que sendo arquipelágica, ganha unidade neste trabalho, que une, reúne e interliga sonoridades açorianas, de Santa Maria ao Corvo.

Destaco as sonoridades marienses, raiz do povoamento, onde as influências árabes e um Portugal perdido no tempo parecem ter ali ficado guardados, para memória futura. Mas este disco é uma viagem única, onde se descobrem tesouros até agora desconhecidos, genuínos exemplares insulares, que ganham projecção nesta obra.

Helena Oliveira ocupa um lugar de destaque nos intérpretes portugueses, afirmando no mapa de cores da alma portuguesa, os traços que nos distinguem e constituem a açorianidade.

Acredito no desenvolvimento dos Açores, quando toma a forma dos que aqui vivem, e nos faz sentir em casa, apesar das mudanças, e nos permite oferecer o melhor do que somos a quem nos visita. O disco “Essências Açores” é um exemplo de como devemos investir no potencial natural, cultural e humano que possuímos ou cativamos, sem nunca perder de vista a essência, a alma, que dá forma ao viver das nossas gentes, enraizados na história do povo que somos.

(publicado no Açoriano Oriental, 31 Janeiro 2011)

publicado por sentirailha às 17:09
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