Domingo, 29 de Maio de 2011

Defender Portugal e proteger os Açores

Ainda restam por aí algumas bandeiras de Portugal, penduradas em varandas e janelas, desde o Europeu de 2004. Não faltou quem considerasse esse gesto, uma prova do patriotismo e do grande amor dos portugueses ao símbolo nacional.

Defender Portugal, ter orgulho em ser português são princípios que consideramos justos, correctos e dignos.

Vivemos tempos difíceis e, numa atitude patriótica, não é de estranhar as vozes que se levantaram contra uma interferência externa, na sequência da escalada especulativa dos investidores e da pressão das agências de “rating”.

Uma pressão irracional que pode ter origem no aumento das despesas do Estado, mas também resulta, de uma forma relevante, do endividamento das empresas e das famílias. Por falta de planeamento, esforço ou visão, muitas não conseguiram aguentar o embate da crise internacional. Não foi certamente por termos salários acima da média europeia, que não temos. Não foi com certeza por termos uma população altamente qualificada, porque infelizmente ainda somos deficitários nesse domínio. Muito menos foi por termos um tecido empresarial moderno.

No entanto, os analistas não negam que em todos esses domínios estávamos e estamos a fazer um esforço de mudança. “A crise não resulta da actuação de Portugal (…) o seu défice orçamental é inferior ao de vários outros países europeus e tem estado a diminuir rapidamente, na sequência dos esforços governamentais nesse sentido”, escrevia há poucos dias Robert Fishman no “The New York Times”.

Mas também é certo que, sem o envolvimento de todos, não se muda o país. E não é fácil, quando por exemplo, fechar escolas do primeiro ciclo com menos de vinte alunos e sem condições provoca uma onda de protestos, ampliada pela comunicação social; melhorar o acesso a cuidados de saúde com qualidade, gera descontentamentos, porque se encerram pequenas unidades sem condições.

As mudanças em Portugal são lentas. A muito custo se consegue racionalizar e diminuir despesas e garantir uma melhor qualidade de vida às populações.

Defender Portugal é ter o arrojo de acreditar que temos de mudar, transformar, qualificar e renovar, a um ritmo superior à média europeia, se nos queremos aproximar de níveis de vida condignos e não ficar à mercê de especuladores.

Somos um país pequeno, marginal, numa Europa de grandes e, por isso, Portugal foi vítima de uma crescente descredibilização vinda de agências de “rating”, entidades quase virtuais, dominadas por interesses pouco claros, que não olham a meios nem estão preocupadas em defender o esforço que os países possam estar a fazer para crescer de modo próprio.

E o que fizeram aqueles que não estando no poder, tinham responsabilidades políticas?

Em vez de elevarem a bandeira nacional nas janelas da sua consciência e defenderem Portugal acima de qualquer outro interesse imediato, entenderam que a crise financeira era uma oportunidade para se afirmarem como “salvadores da pátria”. Alucinados com a hipótese de chegar ao poder, esqueceram-se que estavam a arrastar o país para medidas de austeridade ainda mais gravosas.

Onde estava o patriotismo, quando os partidos na oposição se regozijaram com eleições antecipadas, que vão custar 18 milhões de euros? Qual é a defesa de Portugal, perante o agravamento previsto da qualidade de vida dos portugueses?

Infelizmente, há quem facilmente cante o hino e levante a bandeira, em jogo da selecção, mas, quando é preciso unir esforços para afirmar a nossa identidade, se esqueça de defender Portugal.

Defender Portugal é proteger os Açores e afirmar a nossa identidade na unidade do país.

(publicado no Açoriano Oriental, 18 de Abril 2011)

publicado por sentirailha às 00:23
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Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Viver a crise

Os últimos tempos têm sido marcados, a nível europeu e em Portugal em particular, pelos números da dívida soberana, por taxas de juros que sobem e rendimentos que descem ou vão ser cortados.

Não é novidade termos chegado a este tempo de dificuldades. Sabíamos que a crise do chamado “subprime” nos Estados Unidos iria ter consequências desastrosas na Europa, somente não se sabia qual o grau de incidência em cada país.

Alguns dirão, por culpa dos governos, outros encherão a boca com o nome do primeiro-ministro, fazendo de uma pessoa o bode expiatório de todos os males.

As dificuldades que nos afligem hoje e que irão se agravar nos próximos tempos merecem mais atenção do que um simples apontar o dedo a culpados, como fazem os irresponsáveis. Todos temos responsabilidades no que falhou.

Somos um povo de memórias. Quando nos elogiamos, recuamos ao tempo das descobertas para encontrar o arrojo e o espírito de aventura dos portugueses. Se queremos encontrar causas para os atrasos estruturais, acabamos sempre por reconhecer o impacto negativo de meio século de ditadura, que fragilizou o tecido económico e reduziu as ambições do país em matéria de qualificações. E, depois, quando analisamos o impacto que esses movimentos tiveram, descobrimos portugueses nos quatro cantos do mundo, como povoadores ou emigrantes, à procura de terra, tesouros ou empregos melhor remunerados.

Isto é, quando a dificuldade apertou, sempre encontramos uma saída, fugir, procurar melhor noutro lado. Ainda agora, perante o difícil momento que o país atravessa, muitos pensam na emigração. “Este país não me dá outra alternativa, não há nada que me prenda aqui!” referia um jovem licenciado à procura de emprego.

Pergunta-se, e que alternativa damos nós ao país? Não queremos restrições, mas também não investimos na produção de riqueza; não concordamos com subsídios, mas se pudermos nos reformar antes do tempo, tanto melhor, e se der para meter uma baixa, os outros que trabalhem.

A história portuguesa contrasta na capacidade de lutar, com a fuga perante a dificuldade; na apologia da inovação, com as vozes críticas e conservadoras que receiam mudar procedimentos. Falhamos, porque não reconhecemos a tempo a urgência de qualificar e inovar em sectores tradicionais e, entretanto, vivemos segundo a velha fórmula do “desenrasca-te e improvisa”. Não quisemos acreditar que esta máxima tinha os dias contados.  

Agora que a crise já não é um cenário, mas uma realidade concreta, só resta rever o passado e reestruturar o futuro. Fugir, emigrar, desistir é dar um sinal de fraqueza, “entregar os pontos” e assumir que só enfrentamos desafios quando emigramos.

Não é o fim do mundo viver uma crise económica. Os povos de outros países europeus (Islândia, Grécia, Irlanda, Espanha, Reino Unido, Itália, Holanda, França), se bem que a níveis diferentes, estão a combater tenazmente esta adversidade conjuntural. É possível sair da crise, porque conhecemos as armas para a enfrentar. Pior seria viver uma guerra, ficar à mercê, sem ter como se defender.

A questão principal está em deixar de “viver em crise” e passar a “viver a crise”, ou seja, enfrentar as dificuldades e não se afogar nelas, identificar fraquezas e forças e não sucumbir à letargia e passividade ou virar costas.

(publicado no Açoriano Oriental de 11 Abril 2011).

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publicado por sentirailha às 17:23
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