Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Persistir

A etimologia das palavras faz-nos mergulhar no sentido mais profundo da sua origem e que habitualmente desconhecemos. Usamos e abusamos das palavras, diariamente, por vezes de forma superficial, quando tentamos dizer o que pensamos, queremos ou sentimos.

Persistir é um verbo, que alimenta a persistência, qualidade fundamental que pode fazer a diferença entre o sucesso e a derrota, entre a realização e o abandono. Persistir, diz a etimologia, é uma palavra composta, por “per”, que significa totalidade e “sistire”, que significa manter-se firme,
de pé.

Quem é persistente, entrega-se de corpo e alma, inteiro, à realização de uma tarefa, à concretização de um objetivo, mantendo-se firme, de pé, qual velejador segurando o leme em plena tempestade.

Não é fácil persistir, quando aumentam as dificuldades, críticas, acusações, ameaças ou se vive num clima de descrença. Não é fácil encontrar pessoas que se entregam de corpo e alma, e que mesmo nos momentos mais difíceis não duvidam das razões que justificam uma determinada escolha.

É normal sentir dúvidas e, por momentos, até é saudável afastar-se do percurso, quando perante essa exigência de totalidade, uma parte do eu não adere, tem medo de perder e aumenta a indecisão entre um avançar, que pode ser doloroso, e um parar que acomoda. Quando não se está de corpo inteiro, a mente vacila e o corpo parece ceder. Valerá a pena? O que ganho com isso?

Os percursos de vida com sucesso mostram sempre pessoas com persistência, que não se ficam pelo entusiasmo inicial, e onde não faltam lutas em momentos difíceis.

Persistir é dar-se de corpo inteiro e manter-se firme, de pé.
Não basta entregar-se, é preciso não se deixar vencer. Persistir exige coragem, determinação e uma crença inabalável no que se pretende alcançar. Só quem acredita em si consegue manter-se firme e não cede às vozes que dizem para largar, desistir.

Esta é uma virtude que tem de ser ensinada, estimulada e não abafada, como fazem muitos pais. Perante a dificuldade da criança, que tenta resolver um problema, tão simples como levar a colher à boca, atar os sapatos ou pintar um desenho, apressam-se a completar, dizem eles que ajudam, e assim evitar a dificuldade. Quando é aí, perante os obstáculos, que se aprende o valor da persistência. É aí, testando capacidades, resolvendo problemas, que se cresce e se amadurece. De nada serve, levar a vida a colocar almofadas para nunca sentir a dor da queda. O importante é levantar-se e voltar a tentar, persistir.

É a persistência que transforma o aprendiz em mestre ou permite alcançar a meta, quando se é peregrino ou alpinista. A dor aperta, mas o objectivo permanece. A tentação é para parar, resguardar-se, mas vence a vontade de chegar, não para competir com outros, mas para vencer, em si mesmo, esse outro que se julga derrotado à partida.

Por mais difícil que a vida nos pareça, não podemos deixar de persistir na realização do que faz sentido, mesmo que isso signifique lutar ainda mais, vencer mais obstáculos, afastar barreiras ou reinventar soluções.
Este não é o tempo para desistir, mas para persistir.

(publicado no Açoriano Oriental de 14 Novembro 2011)

publicado por sentirailha às 16:05
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Confiar

De acordo com os últimos resultados do Inquérito aos Valores Europeus, os portugueses são dos cidadãos europeus que menos confiam. Não confiam nos outros, perderam o sentido de confiança na palavra, que outrora selava um compromisso, não confiam naqueles que elegeram, sendo por isso pessimistas em relação ao futuro, que duvidam possa ser melhor do que o presente.

A falta de confiança favorece o fatalismo, a submissão e a visão dramática da vida como um fado, um fardo, que oprime e reduz a liberdade individual. Sem confiança, os portugueses dificilmente poderão libertar-se do medo e da baixa autoestima, porque quem não confia no ser humano, não será alguém de confiança.

A falta de confiança é no fundo um sintoma de falta de fé em si mesmo.

Mas porque motivo serão os portugueses tão desconfiados?

A confiança aprende-se. Nas relações de entreajuda, na divisão de tarefas e na partilha de responsabilidades. Quando não se ensina e não se promove a cooperação, dificilmente se consegue reconhecer o mérito dos outros.
Se não se valoriza a importância do dar, mesmo quando não se recebe e não se aprende a ouvir os elogios ou as repreensões, dificilmente se constrói cidadãos confiáveis e confiantes.

A confiança é um valor fundamental na vida de uma sociedade.

É a confiança que protege o artista de circo quando se atira do trapézio para os braços do companheiro. É a confiança que nos faz comer os alimentos que outros confecionaram. É por confiarmos que acreditamos.

Quando se perde a confiança não é apenas uma relação no presente que se rompe, mas todo um passado que se contamina e um futuro que se compromete. Será que fui enganado? Serei capaz de voltar a acreditar?

Mas porque desconfiam os portugueses? Porque se perde a confiança nos outros, particularmente nos que elegemos ou em quem delegamos uma responsabilidade?

Merecer a confiança de um eleitorado é aceitar defender o bem-comum sem disso tirar proveito pessoal. Ser confiável é colocar a defesa dos direitos de todos em primeiro plano, sem ter a preocupação de assinar por baixo, sempre que se consegue ou se vence um obstáculo. Infelizmente há por aí quem não seja de fiar, porque abusa, prefere a esperteza, os pequenos poderes, que favorecem o imediatismo do benefício.

Confiamos nas pessoas que mantêm a integridade, ou como diz o povo que têm coluna vertebral, são fiéis aos princípios que dizem defender, coerentes no agir com as palavras que professam, leais com quem e com o que se comprometem e firmes quando se trata de defender um ideal.

Ao invés, não merece confiança quem se vinga quando perde, quem nunca reconhece quando falha ou é capaz de prejudicar quem o ajudou. Mais depressa se perde confiança do que se ganha e, por vezes, não é fácil reconquistar essa confiança, depois de perdida.

A confiança é um bem que engrandece quem a merece. Mas confiar nos outros não é desistir de ser, nem demitir-se de agir ou de estar atento. Também se perde por excesso de confiança, quando não se mede os riscos e se deixa guiar por quem não sabe, sem nunca questionar para onde nos estão levando.

Se a confiança está a faltar aos portugueses, mais coerentes terão de ser os governantes deste país. Porque não basta parecer é preciso ser, de confiança.

(publicado no Açoriano Oriental de 7 Novembro 2011)

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publicado por sentirailha às 17:29
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