Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Olhar azul

Se pudéssemos fotografar a vida de uma pessoa, talvez a imagem fosse semelhante ao traço de luz de uma foto noturna tirada quando dezenas de veículos circulam a grande velocidade. Entre os muitos traços de luz, cada vida é apenas um, mais ou menos intenso, que a certa altura se apaga, enquanto outros avançam.

É efémera a luz de uma vida, mas quem dela beneficia sabe o quanto significa em termos de força, presença, orientação.

Quando esse traço de luz se apaga, fica um sabor amargo de ter de continuar a viagem sem poder partilhar essa força anímica, mas com a plena certeza de a trazer gravada no coração, na mente, em memórias que não se apagam, num sorriso que não se esquece e num olhar tranquilo, um olhar azul.

 

Nos teus olhos, aprendi o que era amar,

E a ter força para caminhar.

No teu olhar, descobri a firmeza e a doçura,

De que precisava para viver e lidar com a dificuldade em avançar.

Há poucos olhos como os teus,

Onde a força se mistura com a ternura,

Onde a certeza se transforma em apoio,

E a repreensão é sempre ajuda.

Há poucos olhares como os teus,

Onde não há violência, mas chamadas de atenção,

Onde não há agressão, mas compreensão.

Nos teus olhos, aprendi a ser filha e a ser mulher,

A ser mãe e amiga,

Porque nunca me recusaste uma bênção ou uma palavra,

Estavas ali, sempre, para me ouvir com esses olhos,

Atentos ao que te dizia, seguindo o meu pensamento como guia.

No teu olhar azul, deixaste-me mergulhar,

Todas as vezes que me senti sozinha e perdida,

Foste o meu horizonte, a minha meta, o meu porto refúgio.

No teu olhar, aprendi a nadar,

Primeiro a medo, depois segura que nunca me deixarias afogar,

Mesmo que por vezes me largasses,

E me deixasses afundar,

E sentisse que, estando tu ali, eu me podia abandonar.

No teu olhar azul,

Aprendi a ser, a crescer e a dar,

Porque nunca fechaste essa porta, esse teu mar.

Nunca me disseste, não podes, mas me fizeste pensar.

Como eu gostava que nunca se apagasse esse olhar,

Que me enche a alma de ternura e força,

E me faz avançar.

Obrigada, olhar azul.

 

(Em memória do meu pai de olhar azul, José Manuel Lalanda Gonçalves)

(publicado no Açoriano Oriental de 30 Janeiro 2012)

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publicado por sentirailha às 23:32
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Estar preparado para errar

Ninguém tem sucesso na vida, numa batalha política ou num percurso profissional, se não estiver preparado para errar. Quem julga que nunca falha ou quem, apesar da incapacidade de tudo fazer bem, é incapaz de o reconhecer, nunca vencerá desafios.

Vencer é ultrapassar obstáculos, gerir esforços, aliar-se a outros para pensar estratégias e não recear reconhecer quando se cometem erros ou não se escolhem as melhores soluções.

Vencer é não procurar atalhos para cortar caminho, mas fazer jogo limpo, seguindo etapas, medindo os riscos e nunca menorizando os erros, mas refletindo porque ocorreram.

Quem diz que nunca erra é porque faz sempre a mesma coisa ou da mesma maneira. E, fazendo sempre o mesmo, age de forma mecânica, quase automática, com frases feitas, conceitos vazios de conteúdo, pendurando-se no que dizem os outros por ser incapaz de pensar por si e de ter ideias inovadoras.

Estar preparado para errar é condição de partida para quem se lança à estrada e quer fazer caminho.
Significa que está preparado para corrigir, rever comportamentos, aceitar conselhos e reconsiderar posições.

Quem parte convencido que tudo fará na perfeição, que nada irá falhar, que tem todos os recursos necessários para chegar ao fim, sem penalizações, engana-se redondamente porque ignora as reações daqueles que lhe apontam fragilidades e comportamentos desadequados.

“Errar é humano” é uma frase feita que muitos utilizam como desculpa para as falhas que todos cometemos, seja na relação com os outros ou na execução de uma tarefa. “Errar é humano” mas, “aprender com os erros é divino”.

A vida não é uma sequência de acontecimentos perfeitos, mas uma perfeita sequência de acontecimentos mais ou menos imperfeitos. Porque não há perfeição se não na capacidade de encontrar sentido diante do que nos faz sofrer, do que nos obriga a recomeçar ou nos torna impotentes perante realidades que não podemos mudar, mas que nos ensinam a tudo relativizar. Porque é quando estamos dispostos a encontrar sentido, nas perdas, nas falhas e na morte, que descobrimos o segredo para vencer na vida.

Vencer nunca é conseguir tudo, nem se calhar errar menos, mas é certamente saber reconhecer os erros e aprender a fazer mais e melhor depois dos insucessos.

Estamos num tempo de perdas. Perdas de salário, de poder de compra, de emprego, de apoios sociais, de um sistema de saúde cada vez menos gratuito, de um sistema de segurança social com menos garantias de apoiar na reforma.

Depois dos indignados que se manifestaram na rua contra a falta de oportunidades dos jovens, hoje parecem existir um coro de desalentados. Da indignação ativa, passaram ao desalento, amorfo, doentio. Não basta indignar-se, é preciso muito mais. É preciso reconhecer que todos cometemos erros e, por isso, de nada serve apontar o dedo aos outros, se não usarmos as mãos na transformação do mundo.

Quem não assume os erros que comete acaba sempre por se justificar com os erros dos outros. Se não fosse ele! Se antes de mim tivessem! Se não fossem os governos anteriores! Limitamo-nos a gerir a herança que recebemos…!

Só há uma estratégia para vencer, é estar preparado para errar e fazer melhor, aprendendo com os erros.

(publicado no Açoriano Oriental a  23 Janeiro 2012)

publicado por sentirailha às 18:21
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