Sábado, 20 de Setembro de 2014

Recomeçar

Recomeçar é um verbo estranho, onde a esperança de um novo tempo se mistura com a continuidade, num começo carregado de experiências anteriores, que retoma o percurso deixado, por ventura de forma mais madura, ajuizada, tão diferente do que foi na primeira vez, no começo.

Recomeçar é sempre um ato de coragem, porque quando há que agarrar um novo desafio, depois de concluído ou abandonado um percurso, por vezes, apetece desistir, encostar e não tentar de novo. Em todo o recomeço está presente a memória do percurso anterior. Afinal, mal ou bem, estávamos num caminho e havia planos, que se concluíram ou não; agora há que voltar à casa de partida ou emendar o fio à meada deixada por tricotar.

Recomeçar, seja o que for, a escrever, lecionar ou jardinar, faz-nos sentir de novo presos à terra, onde os pés bem assentes no chão vão trilhando caminho.

E foi isso que me aconteceu.

Depois de um percurso mais ou menos longo de envolvimento político, como simpatizante do partido socialista, desde o poder local ao regional, passando por muitas campanhas eleitorais, regressei aos livros, ao estudo e à docência que, em grande parte me ajudam a construir um pensamento sobre a realidade e reforçam a sensibilidade para entender e ter curiosidade para compreender o mundo que me rodeia.

Alguns poderão pensar que devia ter voltado ao parlamento regional pois, em bom rigor, fui eleita para um mandato de quatro anos, para defender um projeto político e um programa de governo. Essa era uma opção e até diria um dever, mas que deixou de corresponder às circunstâncias, já que foi entendido pelo responsável do governo, que não estaria a concretizar da melhor forma esse projeto, esse programa, particularmente no que às políticas sociais diz respeito, dimensão que considero de extrema importância na estruturação de uma sociedade mais justa e mais desenvolvida.

Devo uma palavra aos eleitores, por não ter recomeçado onde estava antes, ou seja no lugar de deputada, e ter optado por regressar à realidade académica de onde saí, antes da vida política.

Essa é no entanto a minha visão de serviço, que considero indissociável dos cargos políticos. Não são uma profissão, são mandatos, não são eternizáveis, mas transitórios. Os seus protagonistas ganham em levar para a vida política o conhecimento que têm da realidade e a voz das pessoas a quem é suposto servirem, para que o discurso político seja enraizado e não flutue entre frases feitas e imagens de cartaz.

A política é a arte de gerir a polis e, na sua origem, ontem como hoje, está a cidadania, ou seja, a defesa dos direitos de todos, para todos.

Recomeçar tem por isso uma vantagem, talvez não seja voltar à estaca zero mas reencontrar-se com a raiz, com os fundamentos da cidadania, por vezes esquecidos, por falta de tempo, de reflexão ou estudo, porque a urgência do momento ou a emergência dos números e dos resultados abafam e disfarçam os contornos mais agrestes da realidade.

Recomeçar torna-nos eternos aprendizes do saber, renova forças, liberta o pensamento e dá estímulo para nunca desistir, nem encostar.

Há muito campo para lavrar, muita tarefa para desempenhar, muitos abraços que não se deram, por falta de tempo.

Recomeçar obriga-nos a olhar em frente, sem medo nem pena do que ficou para trás ou se perdeu, porque “virar a página”  significa um sem número de possibilidades para iniciar a escrita de um novo capítulo.

 (publicado no Açoriano Oriental - Diga leitor - de 20 Setembro 2014)

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publicado por sentirailha às 21:30
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