Quarta-feira, 22 de Abril de 2015

Empreendedorismo

O mundo ocidental descobriu o empreendedorismo como uma resposta à crise económica, mas também viu nesta nova teoria uma alternativa para a falta de saídas profissionais, que se colocam aos desempregados, sobretudo aos jovens que terminaram a sua formação.

Empreendedorismo, como quase todos os ismos, sendo um quadro de ação, é também uma ideologia centrada na capacidade de uma pessoa construir o seu próprio percurso, de forma independente, por iniciativa própria e, tanto quanto possível, com inovação que marque a diferença. Quem não ouviu falar de Bill Gates, Steve Jobs ou do jovem Zuckerberg, criador do facebook?

Mas será que há muitos por aí com um perfil semelhante?

Como todos os ismos, o empreendedorismo é muitas vezes usado sem moderação, panaceia para todos os males, que deve ser ensinado nas escolas como linguagem ou ferramenta para vingar na vida.

Há neste conceito, que apela à iniciativa própria, um lado perverso.

O sistema económico que não consegue, ou não quer arriscar, criar mais empregos, mais oportunidades, responsabiliza os desempregados, os candidatos a um primeiro emprego e coloca a "bola" no seu campo: "cria o teu próprio emprego, faz o teu negócio" ou como se ouviu recentemente dizer aos recém emigrados, "vem" que nós te ajudamos, com alguns milhares de euros. Isto, claro, mediante o interesse que o teu projeto tiver!

O sistema educativo, que nem sempre forma e reforça as competências de acordo com o mercado e a inovação necessária, responsabiliza os estudantes pelas escolhas académicas que fizeram e mesmo que os tenha preparado convenientemente, incita-os às experiências internacionais, à migração que os faz descobrir que há quem esteja interessado nas suas capacidades.

O sistema social, cada vez mais atomizado, perde o sentido de comunidade, destruindo as solidariedades tradicionais. Envelhecido, responsabiliza os que gostariam de ficar, mas que não tem recursos, a investirem em negócios, por sua conta e risco. Longe dos tempos da partilha de trabalho, "hoje lavro a tua terra, amanhã lavras a minha", os novos negócios ficam às costas de quem os cria.

E assim, o empreendedorismo, que se apresenta como a linguagem dos novos tempos, acaba por ser uma nova forma de individualismo.

A comunidade afasta-se, o apadrinhamento, que era um laço de solidariedade genuíno, perde qualquer sentido e até é tido por favorecimento, e o individuo, que quer contribuir para o desenvolvimento da sua terra, vê-se a braços com um desafio solitário, quase impossível de vencer.

O empreendedorismo, dependendo da criatividade e iniciativa individuais, deve ser encarado como um motor de desenvolvimento comunitário. Se assim não for, poucos se aventurarão em negócios, inovações ou mudanças, que podem representar uma mais-valia para a economia, as organizações ou mesmo as instituições públicas.

Não basta apoiar com fundos ou programas de incentivos, mesmo que associados a acompanhamento logístico ou técnico. O principal apoio passa pelo envolvimento da comunidade. Sem portas abertas e sem críticas construtivas, dificilmente algo de novo cresce. Não é isolando os empreendedores que se alimentam alternativas de iniciativa individual.

O empreendedorismo tem de ganhar um conteúdo colectivo, para poder transformar a nossa realidade económica e social e ser motor de desenvolvimento e crescimento sustentável.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 21 Abril 2015)

publicado por sentirailha às 15:09
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Domingo, 12 de Abril de 2015

Projeto de vida

Esta é uma expressão que se ouve a propósito, por exemplo, de jovens "ditos difíceis" ou com problemas de orientação. Imaginemos o caso do João, um jovem que faltava à escola, que não conclui o 9º ano e que, com 18 anos, é encaminhado para um curso profissionalizante, de uma área que ele até não gosta, mas que é a única disponível na escola da sua zona. Assim, pode concluir o 12º ano, uma das metas por que passa o "projeto de vida" que alguém delineou para ele.

Jovens com o João que, aparentemente, não sabem o rumo a dar às suas vidas, estão perdidos, incapazes de fazer escolhas ou de reconhecer aquilo que os realiza como pessoas.

No entanto, o mais importante, que falha nessas histórias, difíceis, não é tanto a falta de rumo ou a desorientação, mas as relações afetivas em que vivem mergulhados. Ninguém os ama a sério, os pais vivem noutro mundo e deixam os filhos por sua conta, cedo de mais; estes jovens são obrigados a fazer muitas escolhas sozinhos e habituam-se a fazer apenas, ou quase sempre, o que lhes apetece... quando lhes apetece.

Falar de projeto de vida a um jovem nessas circunstâncias é confuso e quase impossível. Falta-lhes um fio condutor!

Quando uma história é feita de pedaços soltos, aparentemente sem sentido, o mais importante é ajudar a encontrar esse fio condutor, um traço por vezes impercetível que se esconde entre pedaços de uma história, feita de abandonos, sofrimentos e ausências.

Há sempre um eixo que estrutura a vida. E, só a partir daí, se pode perspectivar o futuro, pensar um projeto de vida.

Não há projetos de vida à venda na farmácia ou nos gabinetes de orientação psicológica. E, ninguém, por mais complicada ou difícil que tenha sido a sua vida, é um caderno em branco, onde se pode começar a escrever, passados quinze, vinte ou cinquenta anos.

A vida faz-se com laços, com relações, com acontecimentos.

É nessa base relacional, que se enraiza e toma forma esse fio condutor que explica a vida de cada pessoa e a torna capaz de viver ou perspetivar acontecimentos, que até julgava improváveis: emigrar, mudar de profissão, fazer um curso, apaixonar-se ou descobrir prazer numa atividade que experimenta pela primeira vez.

A vida faz-se de encontros e os projetos que se tornam objetivos de vida, só conseguem vingar quando se enraizam no que somos.

Só quando nos assumimos, com capacidades e defeitos, com o que sentimos de forças e fraquezas, podemos pensar no que ainda não fizemos e queremos ou gostaríamos de atingir.

Ninguém, em bom rigor, pode delinear um projeto de vida para outros. Não pode. Não tem esse poder. Só o próprio o pode fazer. Mas precisa de ajuda de alguém, antes de mais, para se encontrar consigo e descobrir quem é, e depois para encontrar esse tal fio condutor, mesmo que o tenha de procurar no meio da violência, da instabilidade, das faltas de amor que marcam a sua história.

Depois disso, ficará muito mais evidente qual a etapa seguinte, o tal projeto de vida, o futuro que quer concretizar, o caminho seguir e as escolhas que isso implica.

Não será, por ventura, obrigando um jovem a frequentar um curso que ele não quer, que o fará descobrir o rumo certo, como não é levando um sem-abrigo a tomar um banho ou a fazer a barba, que o faz deixar a rua.

A vida de cada um de nós é um projeto em permanente construção, mas quem o desenha da forma mais adequada somos nós próprios, com a ajuda dos outros é certo.

Para alguém descobrir o seu projeto de vida, o seu "eu", tem de viver num "nós", ou seja tem de partilhar a sua vida com os outros.

(texto lido na Rádio Atlantida a 12 Abril 2015, no programa "Entre palavras" de Graça Moniz).

publicado por sentirailha às 20:57
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

Saúde

O verbo saudar tem origem na palavra saúde. "Salut", dizem os franceses quando se cumprimentam. "Haja saúde", dirão os portugueses. Mais do que um cumprimento é um desejo, uma boa notícia e uma atitude positiva de quem deseja o bem do outro.

Saúde é sem dúvida um bem, um valor, sem medida ou quantidade, que vive connosco, sem nos darmos conta, até ao dia em que a perdemos. Andamos, dormimos, planeamos o dia seguinte. Com saúde, estamos bem com a vida, bem connosco e com os outros, vivemos o agora e pensamos o futuro sem restrições.

Olho as caras das mulheres que esperam, como eu, num corredor por mais uma mamografia de rotina. Sem sobressalto, é mais um exame. Mas, e se desta vez não está tudo bem? E se depois do exame, a vida fica diferente?

Basta um segundo e tudo pode mudar.

Felizmente, não há que preocupar, o meu exame nada assinala. Mas no rosto de uma outra mulher, apercebo-me da sua intranquilidade. A médica pediu que repetisse a mamografia, uma reincidência, como lhe chamou a técnica que, numa voz grave, surgiu na porta para chamar a D. Lurdes. "Mais uma maldade não é!. Vamos lá!" De olhos baixos, sorriu triste. Mais uma maldade não seria, mas certamente que a sua vida não seria a mesma depois daquele exame radiológico, que iria ditar a confirmação ou não de um problema oncológico. Ainda bem, pensei, que há cada vez mais a consciência de que é necessário prevenir problemas que a ciência hoje conhece melhor. A ignorância nunca beneficiou a saúde.

Hoje sabemos que grande parte da nossa existência depende da forma como vivemos, comemos e, sobretudo, como cuidamos do corpo, se fazemos ou não exercício, se estimulamos ou não a mente de forma criativa, se somos ativos.

Viver com saúde é estar presente, sentir a natureza, as coisas simples, fazer o bem e sentir o bem que os outros nos fazem.

Viver até aos 106 anos como o cineasta Manuel de Oliveira é uma proeza. Mas não será tanto pela idade que este homem ficará na história, mas por ter vivido intensamente uma longa vida de ação, trabalho e criação. Nunca se deixou parar, nem desistiu de si, mesmo quando o corpo parecia não querer acompanhar a energia da mente.

A saúde é um bem, mas não é uma dádiva absoluta. É o resultado de uma forma de estar na vida. Se a queremos preservar, temos de descobrir como. E esse segredo é individual, não se descobre em receitas padrão. É um ponto de equilíbrio, que não se obtém com dietas ou planos de emagrecimento, mas com consciência das escolhas diárias, que cada um de nós faz, quando se senta à mesa, quando se deixa ficar em vez de agir, quando esquece a felicidade dos outros ou os riscos que corre, para viver o prazer de um momento.

A saúde é um estado de liberdade interior que ultrapassa as limitações (e todos as temos) para potenciar o que de melhor cada um tem. Não há duas pessoas iguais. Por isso, não é possível medir ou qualificar esse estado de bem-estar. Na certeza porém, que a saúde fica em risco quando se vive dependente, passivo e sem objetivos.

É importante conhecer-se e descobrir a felicidade que o bem-estar interior proporciona. Acreditar na vida, descobrir o mundo que nos rodeia e nunca, mas nunca, desistir de si mesmo. A saúde também passa por aí, pela vontade intensa de viver e, sobretudo, de sentir a vida.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 7 Abril 2015).

publicado por sentirailha às 19:41
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