Sexta-feira, 31 de Julho de 2015

Férias e pormenores

Detalhes, pormenores são aspetos da vida, das pessoas ou da natureza que habitualmente os nossos olhos desvalorizam, ignoram, preocupados em registar tudo com a grande angular do olhar.

Detalhar, pormenorizar ou esmiuçar é ver com atenção a parcela do quadro, a pedra do muro ou a ruga que o sorriso provoca no rosto. E, nesse exercício de atenção, descobrir a beleza escondida no mundo que nos rodeia.

Sem um olhar de pormenor, de pequena escala, que atenta ao pássaro poisado, à folha amarela numa floresta de verde, às nuances de azul do mar ou ao formato das nuvens, passamos ao lado da diferença.

E faz toda a diferença, olhar o mundo em grande angular ou observar os seus pormenores, detalhes, é como viajar por estradas secundárias ou percorrer apenas autoestradas.

Veja-se o exemplo das ilhas, territórios pequenos, onde dez quilómetros podem significar atravessar a ilha de lado a lado, enquanto noutra terra maior, isso seria atravessar um campo ou até uma propriedade privada.

A questão não está na quantidade de quilómetros que se percorrem mas no modo como se descobre cada metro, cada recanto, cada lugar.

Há uma história para se contar, a partir daquela reentrância do mar, onde o azul é diferente, a areia por ser mais grossa não se prende aos pés e as ondas nem sempre nos trazem ao mesmo lugar da praia.

São experiências, emoções de pormenor, que transformam um lugar bonito, numa recordação de férias.

Atrevia-me a dizer que é preciso incentivar o turismo do detalhe, do pormenor, e convidar quem nos visita a olhar as ilhas sem pressa de chegar, sem grandes angulares, mas com lentes de aproximação. Assim, haverá muito mais para descobrir. Por exemplo, essa é a beleza dos trilhos, que afastam os caminheiros de estradas alcatroadas e largas, para os conduzir a pequenos carreiros que serpenteiam a natureza. Fazer um trilho é caminhar em busca do pormenor, do detalhe e maravilhar-se com as revelações que a natureza preparou em cada etapa da caminhada.

Detalhes, pormenores, só os vê quem não tiver pressa, quem degustar a natureza, apreciar o sabor dos alimentos, for à procura dos aromas e descobrir com a ponta da língua o tempero das comidas.

Essa é uma forma intensa de viver o tempo. Não importa se são poucos dias de férias. Quando se procuram pormenores e se descobre a maravilha escondida nos detalhes, esses dias tornar-se-ão semanas, sem que haja desperdício de tempo, nem desatenções no olhar.

O tempo de férias sabe sempre a pouco, mas quando se deixa o relógio em casa e se parte à descoberta do que não vem nos roteiros de viagem, então um dia pode valer por dez e, na memória, ficam histórias que nunca mais esquecem.

Convidaria quem nos visita a fazer turismo do pormenor, dos sabores e dos cheiros, dos detalhes de cor e texturas. As ilhas não se consomem ao quilómetro, mas ao metro; não se veem do alto dos miradouros ou de cima das pontes; são para se sentir, para saborear emoções, junto ao mar, molhando os pés nas ribeiras e sobretudo, fazendo de cada detalhe ou pormenor, uma experiência maior.

(artigo publicado no Açoriano Oriental de 28 Julho 2015).

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publicado por sentirailha às 16:23
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Terça-feira, 14 de Julho de 2015

A terra

Cuidar da terra parece simples nos gestos e nos propósitos. Arrancar ervas, cavar ou simplesmente prender umas hastes que teimam em cair, não tem, aparentemente, qualquer ciência, mas exige sensibilidade e arte, porque significa cuidar da vida.

Não é por acaso que jardinar é, para muitas pessoas, uma forma de descomprimir, relaxar e sobretudo, repor energias.

Cuidar das plantas, das flores ou da horta é muito mais do que uma atividade física, representa uma experiência emocional e até pode ser uma aprendizagem não apenas sobre natureza, mas sobre o comportamento humano. Desde logo, tal como as pessoas, as plantas reagem ao toque, à emoção, à dedicação de quem as cuida.

Um jardineiro arranca ervas, plantas "daninhas" que crescem onde não foram plantadas e prejudicam as culturas. São como certas pessoas, insinuam-se e fazem-se passar por imprescindíveis, apesar de nada valerem. Encostam-se aos feijoeiros e deixam que estes se prendam nelas em busca de suporte, ou então, confundem-se com as plantações a proteger vivendo na sombra e à custa da sua energia.

Libertar uma plantação das invasoras que se alastram de forma rápida é um processo necessário para quem cuida de quintais ou de hortas. Fazê-lo é, sem dúvida, uma aprendizagem sobre a forma como organizamos o quotidiano. Nada nunca está concluído. Todos os dias é preciso fazer escolhas, decidir o sentido a dar ao que fazemos, evitando ir ao sabor do que os outros querem fazer de nós, para não correr o risco de perder força. Não é fácil! Há muitas dessas plantas invasoras que, apesar de não darem fruto, tem muita rama e são vistosas.

Temos de cuidar do que é genuíno, do que é nosso, libertando a natureza das invasoras, algumas trazidas por alguém que as achou bonitas numa qualquer parte do mundo.

Cuidar das plantas é fazer escolhas, entre o que vale a pena preservar e o que são meros interesses de ocasião, e isso pode significar ter de podar o que não interessa ou põe em risco o futuro da planta. Podar é uma escolha, que ajuda à concretização do sentido ou projeto de uma espécie. Afinal, retirar um galho que seca ou um ramo que se torna pesado demais é ajudar a árvore a crescer de forma equilibrada.

Fazer escolhas pode ser doloroso, mas é fundamental para termos consciência do que é essencial aos bons resultados.

Apesar da terra ser fonte de sabedoria, trabalhar no campo foi durante demasiado tempo visto como uma profissão pouco exigente, pouco valorizada socialmente. Mal pagos e pouco reconhecidos, muitos foram aqueles que voltaram costas à agricultura.

Felizmente hoje assiste-se ao reencontro com o valor da terra, por necessidade ou por consciência e, aos poucos, se vai retomando o gosto pela produção de hortícolas como profissão ou lazer.

Passou a ser moda ou desejável comer produtos frescos, sem químicos, de produtores que se conhecem.

Numa terra como a nossa, rica, fértil e amiga das plantas, reencontrar o valor do trabalho agrícola e revalorizar a produção de produtos locais pode ser extremamente importante para a nossa economia, a criação de emprego e, sobretudo, para dignificar a relação com a natureza que nos acolhe, tão necessária à sobrevivência como à afirmação da identidade insular.

Cuidar da terra é cuidar de nós...

(texto publicado no Açoriano Oriental de 14 Julho 2015).

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publicado por sentirailha às 23:41
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Terça-feira, 7 de Julho de 2015

Chegou o Verão

O Verão está mesmo aí.... para nos aquecer e nos obrigar a sair de casa!

Nesta hora, penso naqueles que por doença ou incapacidade não o podem fazer, mas mesmo assim, mesmo que a doença vos impeça de desfrutar o sabor do sol, há sempre uma janela por onde entra a luz e se avista o azul do céu.

Hoje é um desses dias, onde sabe bem tirar o bolor aos ossos, sentir a frescura do oceano e fazer uma pausa de descanso.

Não podemos ficar distraídos perante o brilho do astro rei, porque está provado que há riscos na exposição excessiva e sobretudo, na exposição ao sol entre as 11 da manhã e as quatro da tarde.

Há quem não valorize a informação que nos é apresentada junto com a meteorologia sobre o índice de radiação, mas é importante que o façamos.

De que interessa ter um bronze de revista e sofrer de um cancro de pele? Qual é a vantagem de desfrutar duas horas de sol intenso e perder qualidade de vida durante anos, ficando mesmo impedido de voltar a poder relaxar numa praia ou num recinto de banhos?

O sol não é o mesmo dizem as vozes de alerta, não por culpa da estrela mais brilhante, mas infelizmente, por culpa dos homens que aos poucos foram destruindo a camada protetora da terra.

Temos de estar atentos. As consequências do excesso de sol não se sentem num dia, nem mesmo ao fim de umas férias de verão. Elas vão minando a nossa saúde lentamente e quando damos por ela, o mal está instalado.

Estejamos atentos. Muito atentos.

E este alerta não é só para quem frequenta praias ou zonas balneares, é também para quem trabalha ao ar livre.

Não são raros os casos de cancro de pele em agricultores, trabalhadores da construção civil ou pescadores.

Muitos descuram a proteção e, com frequência, vemos homens de tronco nu, trabalhando na construção ou na agricultura. É um risco, sobretudo nas horas mais críticas.

Como evitar? Não será certamente deixando de trabalhar, mas protegendo-se do amigo sol, com roupa adequada e com protetor solar.

Alguns homens dirão: isso de cremes é para mulheres! Mas enganam-se, porque isso de cancro de pele é para todos, homens e mulheres. Logo, o melhor é prevenir do que remediar.

Faltam campanhas nesse sentido. Sempre que se mostram produtos para proteção da pele contra os efeitos do sol, vemos as crianças e as famílias disfrutando de uma tarde de praia. E os outros... tantos outros que se expõem ao sol, trabalhando nas estradas, nos campos e nas embarcações?

Chegou o Verão, o calor e os dias compridos, onde há tempo para tanta atividade de exterior, cuidando das plantas, sentindo o cheiro da erva acabada de ser cortada, ouvindo o chilrear dos pássaros, numa sinfonia orquestrada sem maestro.

É saboroso sentir a vida e sobretudo, deixar que a energia da terra, do mar, do sol, nos preencha o espírito e refaça as forças que gastamos durante um ano de trabalho.

Estamos em tempo de férias, de descanso, um tempo para descobrirmos outras facetas do nosso ser. Passear, fazer um trilho, juntar os amigos, aprender uma nova arte, ler um livro debaixo de um alpendre ou de uma árvore!

São tantas as possibilidades, por ventura, é pouco o tempo que temos de férias para as concretizar.

Disse há pouco que este é o tempo para tirar o bolor dos ossos, mas sei que há muitas mulheres que fazem das férias, um tempo de intenso de trabalho doméstico, porque querem tirar o bolor aos tapetes, às cortinas, às mantas e à roupa de inverno. Empurram os filhos para fora de casa, para se dedicarem a trabalhos forçados!

Esquece! Como dizem os jovens! Esqueçam essa mania de limpezas de verão!

Este é o tempo para carregar baterias! E as férias devem ser um tempo de paragem das rotinas... de descompressão das angustias e dos esforços.

O sol brilha!, o mar está lindo... a natureza mais verdejante do que nunca, por isso só podemos é disfrutar deste tempo, porque não tarda, o inverno regressa... a humidade volta a entrar nos ossos... e ficamos perros, ... sem força.

Votos de boas férias.... e não esqueçam: protejam-se do sol!

(texto lido no programa Entre Palavras de Graça Moniz na R. Atlantida - 5 Julho 2015)

publicado por sentirailha às 23:17
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2015

Festas

O tempo de festa rompe com a rotina. Parêntesis que se abre num quotidiano banal, habitualmente construído de forma ordenada, a festa surpreende pelo contraste, despertando euforia e vontade de sair de casa, uma oportunidade para tirar o bolor às roupas vistosas que ajudam à autoestima. Sem relógio ou preocupações de trabalho ou familiares, a festa é esse parêntesis; um tempo fora do tempo que transforma os sisudos em foliões e os introvertidos em conversadores.

Este é sem dúvida o espírito com que muitos vivem as Sanjoaninas, festa terceirense onde a noite se transforma em dia e tudo acontece madrugada dentro; uma sardinhada ou um bailarico, um cantar ao desafio ou uma sopa de peixe acabada de fazer. Tomados pela euforia, a festa faz esquecer a necessidade de descanso e os limites da razoabilidade.

As ruas, que habitualmente separam e organizam, convertem-se em lugares de encontro, verdadeiras salas de convívio, onde as vozes se elevam numa explosão de emoções antes contidas. São encontros com colegas que há muito não se viam, novos amigos que se conhecem por intermédio de outros e tudo isto temperado com momentos de riso e gargalhada.

À medida que o tempo passa e as horas deixam de ter importância, soltam-se as agruras, esquecem-se as preocupações e sobressai uma faceta que nada tem a ver com a coerência do comportamento habitual.

Fala-se da festa de São João na Terceira quase sempre no plural, as festas, porque não há apenas um acontecimento, são muitos. Desde a transformação dos espaços comerciais encerrados em tascas de ocasião, a criação de recintos de dança improvisados no meio da rua ou junto aos palcos de atuações, para não falar do grande auditório em que se transforma a cidade de Angra, para a passagem das marchas. Ladeada por cadeiras que se amarram aos postes, três ou quatro dias antes, a rua da Sé é um palco de festa, com a sua escadaria a transbordar de emoção, gente interessada e curiosa, que anima os marchantes com palmas, gritando "bravo", vivas, com uma energia contagiante. Ninguém fica indiferente à alegria deste povo, que vive a festa como poucos.

Neste tempo de santos populares são muitas as terras que organizam marchas, mas a emoção com que se vive este acontecimento na cidade de Angra é certamente única e genuína. Os terceirenses vivem as suas festas com um espírito que transforma a noite em dia, quem sabe, reminiscências da presença espanhola na história da ilha. Juntam a isso a ligação aos toiros, à faena e o tempo pára, o mundo vira ao contrário, fazendo esquecer, durante esses dias, a monotonia e a rotina de um ano de trabalho.

Ser açoriano é sentir esta diversidade de vivências que marca a idiossincrasia de cada ilha e dá sentido à identidade regional. Ser açoriano é afirmar uma identidade plural. As ilhas são territórios diferentes e os insulares que nelas vivem não são todos iguais, e ainda bem! Porque a identidade do açoriano faz-se desta multiplicidade de facetas culturais.

Não vale a pena comparar vivências, porque é na diversidade de sentimentos e tradições que está a essência da açorianidade, onde se junta a euforia das Sanjoaninas à emoção das promessas do Sr. Santo Cristo; e o mesmo povo que aprecia uma alcatra com massa sovada, come um cozido nas Furnas e partilha o arroz doce ou o balho da Chamarrita.

Somos açorianos, somos esse povo insular que vive a festa de muitas formas, como irmãos diferentes de uma mesma família.

(texto publcado no Açoriano Oriental de 30 Junho 2015)

publicado por sentirailha às 21:35
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