Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

A Marcha é linda

Mais uma vez, a Marcha dos Coriscos desceu a Sé nas festas de São João.

Alguns dirão, mas qual o interesse? O que motiva tanto entusiasmo?

As marchas são antes de mais pessoas que se juntam com um propósito comum, o de aprender uma letra, uma música e saber coordenar tudo isso com uma coreografia, mais ou menos simples, que transmita emoção e dê uma imagem de conjunto.

Ao mesmo tempo que o grupo aprende estes passos, convive, partilha experiências pessoais e, a pretexto desta atividade, organiza eventos, junta os amigos e convive de forma intensa durante algumas semanas.

Não é fácil alinhar noventa pessoas e fazê-las marchar de forma acertada. Há sempre falhas, distrações e muitas gargalhadas. Mas ao fim de dois meses, todos aprenderam e, quando chega o dia do desfile, gera-se uma corrente de emoções porque, mais do que cada um, é a marcha que se apresenta e que importa valorizar.

Há em toda esta experiência, um espírito de cidadania que envolve a participação voluntária das pessoas e este exercício é que constrói o grupo, a marcha, e promove a boa disposição entre os marchantes.

É preciso dar espaço à alegria e ao convívio. São precisas pessoas em todo o tipo de movimentos cívicos, incluindo os que recuperam ou transmitem o espírito alegre das pessoas. Seja a cantar ou a dançar, num coro ou num grupo folclórico, numa marcha ou num desfile, é muito importante estimular essa forma livre e descontraída de estar em grupo.

O canto e a dança são formas de comunicação que fazem grupo, unindo as pessoas promovem um sentir comum. Longe das manifestações simétricas dos desfiles militares, onde todos se movimentam de forma completamente idêntica, ou quase, as marchas, as danças tradicionais estimulam a participação individual, sem que isso afete o coletivo. Cada um coloca um pouco de si, da sua alegria, e liberta emoções que depois se juntam às dos outros fazendo corpo, criando grupo.

Um grupo é sempre mais do que a soma dos seus membros.

E é muito importante que aprendamos e, sobretudo, ensinemos os mais novos, a saberem estar em grupo. É fundamental educar, desde o berço, dando valor às emoções, que são cimento nas relações e um barómetro que nos permite avaliar se estamos ou não atentos aos outros, se construímos comunidade ou vivemos centrados no nosso próprio umbigo.

Há cada vez mais individualismo nas relações sociais e, infelizmente, esse "vírus" manifesta-se em meninos e meninas, nos bancos dos jardins de infância, que não sabem estar com os outros, são agressivos e incapazes de brincar e partilhar uma bola no recreio. Sossegam quando estão diante de um écran, seja do tablet ou do computador, jogando com companheiros virtuais, o que parece agradar a alguns pais, desatentos de uma educação que ensine a estar em grupo.

A marcha é linda! Linda! Viva a marcha e o São João! Alegres Sanjoaninas, que aquecem o coração. A marcha é linda! Linda! Viva a Festa, vamos brindar, ao povo açoriano que une ilhes com o mar.

Este foi o refrão da Marcha dos Coriscos 2016, um hino à união de todos os açorianos que são capazes de viver separados pelo mar, mas que tem um coração único, onde não há sotaques ou diferenças, porque é o coração de um povo.

Viver esta experiência, de união e de partilha, gera uma grande alegria e boa disposição. E precisamos disso, "como pão para a boca"! Motivos para enfiarmos a cabeça na areia, não faltam! Dificuldades quotidianas, é o que mais há! Temos mesmo é de acreditar que somos capazes de "fazer pontes no oceano" e vencer as tempestades, com força de vontade e sentido de grupo.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 28 Junho 2016)

publicado por sentirailha às 20:42
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Santos Populares

Estamos em junho, mês de santos populares, figuras da igreja que se tornaram patronos de festas profanas, onde se enaltece a fertilidade, o amor, a alegria e, sobretudo, se reforça o sentido de comunidade.

As festas dos santos populares, seja o Santo António, São João ou até São Pedro, estão ligadas ao universo da fertilidade. No Santo António são os casamentos, já que o santo é tido por favorecer a felicidade conjugal e ser uma boa influência como casamenteiro, no encontro de namorados ou namoradas, outrora sonhados para serem companheiros de uma vida, hoje para ficarem juntos "enquanto durar o amor". No São João são as "sortes" e o culto do sol, ainda hoje presente na tradição das fogueiras. O São Pedro, menos conhecido em matéria de amor, vê a sua influência ligada às chuvas que ajudam a fertilidade das terras.

Longe vão esses tempos, em que se pedia a intervenção dos santos, para que tudo desse certo. Alguns desses "negócios" misturavam a religiosidade com interesses bem mais terrenos, por exemplo o dote e as propriedades do pretendente.

Afinal, qual é o segredo de Santo António para encontrar um namorado a quem lhe pede? Será o ar de Junho e os dias de sol, ou não serão antes os arraiais e as festas?

Outrora estas eram as únicas oportunidades para o convívio dos solteiros. Entre bailaricos e barraquinhas de comes e bebes, sempre se acabava por encontrar alguém e uma conversa animada acabava por ser o início de uma relação.

O santo até pode ter dado uma ajudinha, mas certamente que essa conversa, os sorrisos e uma empatia imediata, fizeram o milagre.

O casamento é um encontro, um começo de um história a dois. Mas não há santo ou milagre que possa garantir que dure, se não houver diálogo, uma ponta de surpresa diária que faça descobrir quem somos através da relação com o outro. Viver em conjugalidade é certamente uma forma de se conhecer e, compreendendo alguém diferente, descobrir o mundo.

Não há histórias de casais que durem, se o mais importante está num casamento, que junta nomes, bens ou famílias.

Não há santo que valha quando falha a compreensão. Não há almas gémeas! O que conta são duas pessoas diferentes que descobrem, diariamente, que são mais felizes e mais fortes por estarem juntas.

Por estranho que pareça, vivemos numa das regiões do país onde se casa mais, mas também onde é maior e crescente o número de divórcios. Em 2013 por cada 100 casamentos celebrados nos Açores, registaram-se 80 divórcios. Porque falham tantos casamentos?

Casar é criar um "nós", juntando dois "eu" na partilha de um quotidiano comum, nem sempre fácil ou favorável. Quando o casamento não é vivido como se fosse "uma cruz que se carrega", a relação criada nesse "nós casal" supera todas as dificuldades ou contrariedades.

Pode haver quem acredite que foi o destino que os juntou, mas é bom não esquecer que uma relação só dura, enquanto for uma escolha pessoal e diária. Por muito que peçam a Santo António ou até a São Pedro, não há casamento que dure se o mais importante for acasalar. Não há santo que valha, se os casais se esquecerem de falar, partilhar e amar.

Por muito que as sortes de São João ditem o futuro, o melhor é estar atento, porque a sorte é uma oportunidade e o amor uma faísca, centelha que se liberta da fogueira e poe em brasa o coração!

A arte está em mantê-lo aceso, apesar do vento e da tempestade, quando tudo parece acabar, o amor é um tição que teima em não se apagar.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 14 Junho 2016)

publicado por sentirailha às 20:40
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