Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

Paz interior

A Paz é um valor absoluto, expressão máxima da felicidade, do entendimento entre os seres humanos ou povos.

Pela Paz já se assinaram tratados e se fizeram cimeiras, mas nada que fosse realmente eficaz, porque se fecham acordos de consenso, mas mantêm-se interesses que conflituam.

A Paz não se conquista com leis, tratados ou cimeiras. De nada serve apelar à paz entre os povos, se esta não existir na vida de cada pessoa ou país.

A paz interior é a base do entendimento e isso significa paz de espírito, o mesmo é dizer, viver com consciência do que realmente é importante, prioritário e essencial.

É preciso ser coerente. Por exemplo, quando se diz "deem a cana e não o peixe", aponta-se o dedo a quem tem interesse em receber o peixe, pronto a comer, e nunca se reconhece que, muitas vezes, quem dá esse peixe também procura ganhos, prestígio e poder.

Enquanto os governos ou as pessoas não agirem em consciência, reconhecendo a incoerência entre o seu discurso e a sua ação, a paz não passará de uma palavra bonita.

Como referiu no Parlamento Europeu o Dalai Lama, "para uma vida feliz, devemos dar valor ao factor humano, à harmonia e à paz de espírito", e não aos "valores materiais".

É na coerência entre palavra e comportamento que se descobre e se alcança a paz interior.

Não basta falar de liberdade, respeito, confiança ou solidariedade e depois mascarar o comportamento de gestos de conveniência, oportunismo, evitando beliscar interesses, que minam a coerência do discurso.

É preciso romper com a paz podre e agitar as consciências e a acomodação. Enquanto o Dalai Lama apontava o dedo ao silêncio comprometido da Europa na sua relação com a China, o Papa Francisco visitava os cuidados intensivos de neonatologia e os cuidados paliativos de um hospital. A sua presença, não programada, representou um sinal concreto, de que não basta falar de proximidade é preciso chegar-se aos outros. Não basta dizer "coragem", é preciso ouvir o desespero de quem sofre.

A paz interior não é amorfa, indiferente ou alienada. Não se consegue afastando quem incomoda, mas pelo contrário é fruto da sensibilidade de quem não é indiferente ao sofrimento humano.

Estar em paz com a sua consciência significa sentir-se em harmonia, diante da humanidade e da natureza, ter a noção clara do essencial e da essência da vida. E, entre erros e recomeços, nortear a sua ação pelo respeito do ser humano. Porque a pessoa não é um valor transacionável, não está cotado nas bolsas nem pode ser objeto de troca, venda ou empréstimo.

O mundo, dito desenvolvido, não terá paz, enquanto alimentar guerras noutros países ou ficar indiferente perante as injustiças, a discriminação e o sofrimento humano. Tal como ninguém conseguirá viver em harmonia, se estiver em conflito com os outros.

Para haver Paz é preciso ter coragem para "baixar a guarda" e ser o primeiro a estender a mão.

Dificilmente se consegue a paz sem diálogo e isso significa descer do pódio da arrogância e reconhecer os erros, como sugeriu o Dalai Lama à Europa, a propósito da indiferença dos europeus perante os direitos do povo tibetano.

Não reconhecer os erros engrossa as paredes do ego, engorda a falsidade e faz diminuir a honestidade e a paz interior.

E não havendo paz individual, dificilmente haverá paz coletiva.

A Paz só transforma o mundo, se primeiro transformar o ser humano.

 (artigo publicado no Açoriano Oriental, Setembro 2016)

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publicado por sentirailha às 19:47
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Domingo, 2 de Outubro de 2016

Ter ou Ser

“Professora, a sra. tem de escrever sobre esta dualidade entre o ser e o ter. Há por aí muita gente que só se preocupa em ter, poder, prestígio, dinheiro, e não sabe ser humano, uma pessoa em que se possa confiar, alguém que utiliza os recursos da melhor forma.”

Ter e Ser serão por ventura dois verbos que nunca deixarão de conflituar, na vida, no pensamento, nas decisões.

Por um lado, a necessidade que alguns tem de manter posições, a qualquer preço, na defesa de interesses pessoais ou de lobbys como hoje se diz, por outro, quem não cede a pressões ou interesses na defesa de valores e direitos humanos.

Ser é um verbo muito mais próximo da humanidade, dos valores e da ética que promove a dignidade. Até podemos não ter muito dinheiro ou poder de influência, mas fazem falta pessoas em quem se possa confiar, cuja palavra corresponde ao pensamento, com capacidade de trabalhar em função de objetivos claros, determinado em contribuir para o bem-estar e o desenvolvimento

Ser e Ter, são dois verbos, o mesmo é dizer duas dinâmicas que refletem um quadro de valores diferente e contraditório, quando quem tem não sabe ser. Tem inteligência, mas utiliza essa capacidade para enganar os outros; tem dinheiro, mas investe em aparências e compra o silêncio dos outros, por exemplo para incumprir a lei; tem poder, mas investe na defesa de interesses pessoais ou adota posições parciais, que não tem em conta a defesa do bem comum.

Esta oposição entre ser e ter sempre existiu, mas hoje ela é mais visível e evidente, no quadro de uma sociedade que se quer democrática e que defende os direitos humanos.

Fica a pergunta, quem é que defende essa transparência e honestidade intelectual?

Ainda agora, a Bulgária deixou de apoiar a candidata às Nações Unidas que percorreu uma verdadeira maratona de audições onde se tem destacado o candidato português António Guterres. Qual não é o espanto, nos últimos metros, essa candidata é substituída, supostamente agora por quem tem o apoio garantido da Alemanha, o que compromete o voto dos membros permanentes na candidatura de António Guterres.

Em futebol chama-se a isso, ganhar na secretaria.

E o que fazer perante tais jogadas de interesse, onde o ter poder vence o ser o melhor candidato?

Aparentemente nada. Pois é, nada. Mas não se julgue que tais decisões são inócuas. Elas descredibilizam a democracia, a participação das pessoas, o sentimento de se rever nos seus representantes, que em vez de manifestarem o sentir de quem os elege, tomam como suas as posições que ocupam.

Esse não é um direito que assiste a um eleito, seja em que contexto for, numa assembleia de escola ou de uma região, seja nas Nações Unidas ou no Parlamento Europeu. O voto não pertence ao eleito, mas deve ser a expressão de uma comunidade que o elegeu. Se assim não for, então o eleito até pode achar que tem o lugar que ocupa, mas revela não ser digno dessa cadeira.

Ser e Ter, uma dualidade que nos obriga a pensar quem somos e o que temos, o que fazemos do que temos e afinal, que traço deixamos na vida. Porque se for apenas com base no que temos, será zero, já que a morte irá significar o fim de tudo isso. Pelo contrário, se a nossa vida for pautada pelo ser, então sim, algo ficará na memória, na vida de outros e terá valido a pena viver.

Ser é a única forma de viver com dignidade e contribuir, em vida para que este mundo, que pode ser apenas a nossa família, a empresa ou a instituição onde trabalhamos, possa ser melhor.

É evidente que na vida há sempre uma parte de teatro, de circunstância que nos obriga a jogos de cintura, mas quem tem coluna vertebral, não se verga nessas jogadas. Adapta-se, mas mantem a cabeça erguida, porque sabe o que é essencial.

Quando essa coluna se verga, a sujeição, o servilismo e a subserviência tomam o lugar da dignidade, do bem comum e do respeito pelas pessoas.

Aumenta o silêncio, a abstenção e a indiferença. Quem devia se pronunciar, demite-se e deixa de questionar ou incomodar.

Onde está a irreverência, o desassossego e o espírito crítico?

O ter não devia ter direitos de supremacia sobre o ser, mas quanto maior for essa indiferença, mais espaço se dá ao comodismo que mina a participação cívica.

Acredito numa sociedade de cidadãos, nos direitos humanos e na força do ser e do sentir, porque acredito no bem comum, onde haja lugar para todos nas suas diferenças e necessidades.

Para mim, SER será sempre um verbo maior do que ter…

 (Crónica lida no programa "Entre Palavras" de Graça Moniz na Rádio Atlantida  - 2 de Outubro 2016)

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