Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

Igualdade para fazer a diferença

Será que a igualdade é um valor na nossa sociedade?

"A igualdade é possível? E é desejável?", questiona o último número da revista XXI da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Juristas, cientistas sociais, políticos e técnicos, jornalistas e artistas refletem sobre esta utopia que, desde 1974, provocou mudanças significativas no quadro legislativo português, mas que continua por se concretizar e exige a atenção de todos, nomeadamente, para as subtilezas dos textos jurídicos, dos regulamentos de empresas ou das decisões de quem detém o poder.

Subtilezas que se manifestam numa necessidade injustificável de dominar os mais frágeis, de controlar a vida dos que não gritam na praça pública; "desatenções" que emperram a criação de melhores condições de vida, de quem é considerado improdutivo.

A igualdade não pode ser uma palavra que decora discursos ou uma ambição com "mas", porque "o ideal seria, mas...". Não há "mas" ou "meio mas" quando se acredita que é possível e desejável concretizar a igualdade na prática; fazer da justiça uma prioridade, nem que seja porque a desigualdade transpira exploração, e isso deveria ser desconfortável e envergonhar aqueles que a reproduzem.

Não há muitos anos, um jovem portador de uma deficiência olhou-me nos olhos e fez-me prometer que tudo faria para que a sua associação tivesse uma casa nova. Quem vive em associações dedicadas a pessoas diferentes, não lida com sombras, mas com vozes que se manifestam, nem sempre de forma perceptível, alguns apenas compreendidos pelos pais ou por um educador atento.

Mas as suas vozes são claras quando se trata de reconhecer o conforto e as oportunidades, a atenção e o estímulo. Surpreendem quem não acreditaria serem capazes de cozinhar, interpretar emoções genuínas numa peça de teatro, tocar o coração dos outros com abraços fortes e sorrisos francos.

São essas pessoas que nos fazem ter vergonha quando não somos capazes de cumprir a palavra dada, porque se há quem não esqueça são eles, tantas vezes enganados, explorados e até humilhados por serem diferentes.

A palavra dada a uma pessoa com deficiência deveria ser ainda mais verdadeira, mais comprometida e concretizada.

Não posso, por isso, deixar de me sentir triste, sabendo que as crianças, os jovens e adultos que constroem a sua vida com o apoio de associações, como a Aurora Social ou a Associação dos Autistas, ainda agora, estejam à espera de um edifício sede. Sem nunca perder o empenho, a Aurora Social é um exemplo de inclusão pelo trabalho, promovendo pessoas que o mercado de emprego exclui, rejeita e nem com benefícios fiscais aceita empregar.

Mas, apesar das provas dadas e do exemplo que representam, há quem não cumpra a sua parte e não responda em tempo útil, neste caso, garantindo a concretização de um espaço onde possam crescer, ainda mais, e demonstrar a todos que acreditar na igualdade faz a diferença.

A igualdade não significa "tratar todos por igual", mas agir com equidade. Associações que se esforçam por integrar pelo trabalho ou acolhem aqueles que a sociedade rejeita, ainda menos deveriam ser sujeitas ao adiamento de prazos, à burocracia do empata.

A igualdade é consequente, não se consegue com boas intensões. E isso só é possível se existir respeito por aqueles que, genuinamente, acreditam nas nossas palavras e promessas, mesmo as que são ditas em campanha eleitoral!

Retomando as questões iniciais. Igualdade: Desejável? Obviamente! porque de outro modo a injustiça alastra de forma silenciosa, permitindo a repressão perfeita, onde quem a sofre, nem se apercebe. Possível? Sim. Basta fazer a diferença.

(Artigo publicado no Jornal Açoriano Oriental de 28 Junho 2017)

 

publicado por sentirailha às 22:50
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Uma mulher condecorada

Onde está o reconhecimento público das mulheres açorianas?

Como são construídos os critérios de identificação do mérito e do reconhecimento que determinam a atribuição de insígnias e distinções públicas?

Passados mais de quarenta anos sobre a instauração da democracia, ainda se considera estranho que, numa mesa de honra, estejam apenas mulheres, como afirmou Emília Brederode dos Santos, viúva do Prof. Medeiros Ferreira, aquando do recente lançamento do seu livro de memórias, protagonizado por quatro mulheres, que de forma brilhante falaram da obra deste ilustre açoriano, ele próprio um admirador da garra e do papel que as mulheres desempenham na sociedade açoriana.

Atrevo-me a pensar que o problema não está na ausência de figuras relevantes, mas nos critérios que são utilizados para definir o reconhecimento público.

Na história política, económica e até nos domínios da educação ou da saúde, não se fala das mulheres, de tantas mulheres que lutaram nos bastidores, das que levaram o ensino básico a freguesias isoladas ou combateram a mortalidade infantil, num tempo em que morriam centenas de bebés à nascença.

Não se fala das mulheres que fundaram e hoje lideram associações vocacionadas para o cuidado à pessoa com deficiência, mulheres que deixaram os seus empregos e carreiras, para cuidar de pessoas acamadas e que nas suas comunidades são o amparo de idosos sozinhos. Mulheres que cuidaram das famílias, quando os maridos foram incorporados em forças militares ou emigraram em busca de melhor sorte. Mais facilmente se reconhece o sucesso financeiro do homem na diáspora, do que o sacrifício da mulher que ficou na ilha ou que, tendo emigrado, foi a garantia de suporte à família.

Nem só de lucros ou sucessos literários se faz o contributo dos açorianos. A história destas ilhas está enraizada em muitas figuras femininas que, vivendo por vezes limitadas nas suas ambições, souberam encontrar espaço no ensino básico e na enfermagem, únicas áreas que, no passado, lhes permitiam uma atividade remunerada e o afastamento do destino doméstico. Mas não podemos ignorar que a história destas ilhas também se fez e se faz com muitas mães. Mães dedicadas, que cuidam de filhos portadores de deficiência e de pais acamados, que acolhem os netos e são a retaguarda da família em momentos de dificuldade.

Mas onde está esse reconhecimento público? Ainda no passado dia da Região, apenas uma mulher, falecida há setenta anos, integra a lista das dezanove personalidades homenageadas. Ao distinguir os méritos de quem agiu em benefício da região, e nunca é tarde para o fazer, o texto legislativo refere que, os agraciados "devem prestigiar e dignificar a insígnia por todos os meios".

Alguns dirão, se as mulheres não constam dessa lista é porque não existem figuras que mereçam tal distinção.

A estes só resta devolver a questão inicial, quais são os critérios? Em que áreas se procuram as personalidades a distinguir? Por ventura não se homenageiam mais sacerdotes do que professoras? Mais médicos do que enfermeiras? Mais empresários do que trabalhadoras?

Desde 2006, apenas 24 mulheres, das quais cinco a título póstumo, foram homenageadas num universo de mais de 270 personalidades.

Apesar destes números, a desigualdade de género não é uma questão estatística, mas o resultado de preconceitos e estereótipos. Ideias pré-feitas que condicionam o pensamento, naturalizam a diferença e explicam a injustiça num "sempre foi assim", "não vejo onde está o problema!".

Combater a desigualdade de género exige que reflitamos sobre o modo como pensamos o lugar dos homens e das mulheres, nos diferentes contextos da vida, seja em casa ou nos locais de trabalho, na igreja ou na política, na construção do mundo privado ou em qualquer forma de participação cívica.

Reconhecer exige conhecimento e este implica desinstalar o pensamento do "sempre foi assim..."

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 13 Junho 2017)

publicado por sentirailha às 22:18
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Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

O Papa do sorriso

Francisco, o Papa do sorriso, veio a Fátima mostrar como o amor verdadeiro é sempre pessoal, toca a cada um de forma especial, no mais íntimo da pessoa, para curar as suas feridas e fazer vislumbrar novos caminhos.

O Papa da misericórdia, da humildade, conseguiu em poucas palavras ser doce e firme ao falar da fé, essa trave mestra que segura o edifício da vida das pessoas, crentes ou não em Deus, que carregam vidas mais ou menos difíceis, que sofrem ou estão angustiadas sem saber o que decidir, nas encruzilhadas do quotidiano.

Francisco fala de forma direta, mas com suavidade. As suas palavras tocam o essencial, fazem apelo à ternura e à humildade e não à revolta ou à força.

O mundo assiste a profundas mudanças e alguns, perante a dúvida, acham que é varrendo as pessoas indesejadas, maltratando os insubmissos, que se consolida uma sociedade melhor. Esquecem-se, como refere o Papa, que a força é a arma dos fracos. Os fortes, "não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes".

Neste ponto, o olhar do Papa, tal como o olhar de Deus, volta-se para "os deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, ou os excluídos e abandonados a quem negam o futuro" e diz-lhes para se (re)erguerem.

O mundo precisa deles. Mas, para que este milagre aconteça, para que todos os que se sentem fracos se ergam, os infelizes voltem a acreditar em si e os excluídos procurem lutar pelo lugar, que lhes é negado, é preciso não ter "qualquer forma de medo ou temor".

A todos os que contribuem para a infelicidade dos outros, que esquecem os mais pobres ou mais frágeis, que abusam e esquecem o seu compromisso de bem-fazer, seja na família ou na empresa, na escola ou em qualquer outro lugar, o Papa lembra que estão sempre a tempo de mudar. Recorda que o orgulho pode distrair os corações e esconder as pessoas "detrás das suas ambições e interesses".

A humildade e a ternura, pelo contrário, fazem baixar o olhar para os outros, sobretudo para os mais pequenos, a quem este Papa faz questão de tocar, abençoar, num sinal de ternura evidente.

O Papa Francisco fala com simplicidade, mas com realismo e veracidade. Ele não maquilha os discursos, nem incensa as palavras. Desinstala o poder eclesial e abana os cristãos, sobretudo os que vivem agarrados a rotinas religiosas, alienados do mundo que os rodeia. O Papa recorda que Maria, que se venera em Fátima, é a mesma que acolheu Jesus e chorou diante da sua morte. Maria é uma figura central, exemplo de disponibilidade ao amor; mulher coragem, que acolhe e entrega, protege sem se apoderar, ama sem cobrar.

Por isso, o Papa alerta para o erro daqueles que se dirigem a Maria, para "negociar" favores "a baixo preço". Ter fé não é ter um cartão de crédito ilimitado, um salvo-conduto para benefícios, uma entrada prioritária no reino do bem ou da graça. A fé fortalece, humaniza, mas não isenta os crentes do sofrimento ou da dificuldade. Não seria humana se tal acontecesse.

A fé qualifica a humanidade, ao fortalecer a vontade e o empenho na construção de um mundo melhor, de paz e alegria.

Sem utopias irrealistas, o Papa Francisco mostra-nos como um simples sorriso pode ser sinal dessa abertura à alegria, que quebra os muros da indiferença ou da violência.

Nas suas palavras o medo e o temor não se coadunam com o amor. Quem ama não tem medo, quem quer ser amado não pode recear a força do perdão.

Diante de atentados contra a dignidade humana, contra a violência, os discursos xenófobos e o desrespeito dos direitos humanos, a fé fortalece quem escolhe o Amor como linguagem de poder, aliando a firmeza à força da alegria, da humildade e da ternura.

Francisco, o Papa do sorriso convida-nos a eleger o Amor como força maior e a construir a Paz, de forma artesanal, com gestos diários.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 16 Maio 2017)

 

 

publicado por sentirailha às 12:14
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