Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Um muro na cidade

Em tempos recuados, Ponta Delgada foi um povoado de pescadores, que encontraram nas suas enseadas um lugar abrigado.

Mais tarde, o terramoto que devastou Vila Franca no séc. XVI, acabaria por beneficiar o crescimento daquele povoado e favorecer a sua importância económica, estratégica e política.

Quem veja as fotos da velha cidade, repara num tecido urbano de costas voltado para o mar, definido por ruas estreitas, que concentrava a população em torno de três igrejas.

A construção do porto e a transformação urbanística que ocorreu na primeira metade do século XX alteraram profundamente esta configuração, renovando a frente marítima da cidade, desde logo com a criação da praça Gonçalo Velho onde se evidenciam as emblemáticas “portas da cidade”.

A avenida marginal mais do que uma via de trânsito passou a representar o lugar de lazer preferido dos habitantes da cidade, sobretudo no Verão. Os seus largos passeios facilitavam as caminhadas tranquilas, antecipando a prática recente do jogging.

Com a construção da marginal, nasceu um conjunto de edifícios bem integrados, como os que ladeiam a praça Gonçalo Velho, a Alfandega e os Correios, renovando a face da cidade. Passadas três décadas sobre essa importante intervenção, a marginal foi objecto de prolongamento, que implicou o aterro da Calheta Pêro de Teve, um espelho de água que lembrava a história de pescadores das primeiras comunidades residentes. Do outro lado nascia a marina, o clube naval e as piscinas municipais, fazendo esquecer os velhos tempos da piscina de S. Pedro.

Rapidamente, a nova marginal deu lugar à construção de novas unidades hoteleiras, que por mais integradas que possam estar na malha urbana, não deixaram de contribuir para esconder a velha cidade das ruas estreitas. Mais recentemente, um novo hotel, ainda em construção, emergiu que nem um muro gigantesco, ensombrando ainda mais a cidade e o casario que se esconde por detrás.

Em breve será inaugurado um novo prolongamento da marginal, que há muito deixou de ser uma avenida, para se transformar numa via, por vezes simples ciclovia, que corta a direito e transforma em betão, o que eram enseadas, rochas de lava e recortes naturais.

Em sessenta anos, os habitantes de Ponta Delgada, deixaram a centralidade dos templos e passaram a reconhecer a frente costeira como limite que encerra e liberta.

No passado, a cidade escondia-se por medo dos piratas e do mar que galgava a encosta. Agora se não cuidarmos do modo como intervimos na orla costeira, a cidade ficará escondida, desta feita por culpa dos muros de betão que ensombram o casario.

A orla costeira é um traço importante na construção da dimensão insular da cidade de Ponta Delgada, que importa aproveitar, reabilitando recantos e valorizando pormenores que fazem parte da história do povo que desde há cinco séculos reside nesta cidade. Um povo que redescobriu a sua insularidade, olhando o mar nos passeios da avenida marginal.

(publicado no Açoriano Oriental de 12 Janeiro 2009)

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publicado por sentirailha às 22:19
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