Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Como uma orquestra

Por vezes, no discurso verbal, recorre-se a imagens que acabam por significar o inverso do que se pretende dizer mas, ao mesmo tempo, são um espelho do que realmente se pensa.

Recentemente, a líder do PSD referiu-se à sua relação com o partido, como sendo uma orquestra e disse, “cada um tem a sua pauta, mas há uma batuta única”. Certamente que nunca participou numa orquestra nem teve a experiência de cantar num coro, ou então o que realmente queria dizer é que, no seu partido, e debaixo da sua batuta, o mesmo é dizer sob o seu comando, não há lugar para diferenças, se atendermos ao facto que, numa orquestra, as pautas têm forçosamente de ser todas iguais, se pretende a interpretação de uma mesma peça musical.

A imagem da orquestra é no entanto interessante e até rica de conteúdo, mas não referenciada deste modo. Quem alguma vez cantou num coro ou tocou numa orquestra, certamente que aprendeu e descobriu como cada um pode ser importante no todo. No entanto, quando se toca ou se canta num conjunto musical, não se pode querer ou pretender sobressair.

Por mais rica que seja a voz ou virtuoso o desempenho do músico, numa orquestra o que conta é o som final que emana da interpretação de todos. Sem se anular, o músico ou o cantor enriquece o conjunto com a sua qualidade interpretativa, na medida em que funde o seu contributo no resultado final, como se a orquestra fosse um único instrumento ou o coro uma única voz. Poderão acontecer momentos a solo, evidências de uma sonoridade numa frase musical onde se faz ouvir o timbre próprio de um instrumento ou a voz de um solista, mas até esses momentos são acompanhados pelo conjunto.

Numa orquestra como num coro, é fundamental dar importância à diversidade dos instrumentos e à qualidade das execuções musicais de cada um dos membros.

A riqueza do conjunto depende do espaço que cada um tem para se expressar e, ao mesmo tempo, do prazer que sente em encaixar essa experiência numa dimensão colectiva, contribuindo para a construção de um conjunto harmonioso.

Se a riqueza de uma orquestra está na diversidade dos instrumentos e das execuções, que importância pode ter o maestro? Desde logo, importa que todos entendam a peça que terão de executar e façam uma leitura da pauta de forma coordenada e simultânea, de modo a que se enquadrem de forma atempada, sem atropelos e, sobretudo, interligada.

O maestro, não é quem determina os tempos, mas quem, seguindo a pauta comum procura ligar a execução de todos os elementos da orquestra num respirar comum, numa emoção que cresce com a execução de cada um e de todos.

O maestro é um mediador, que deverá saber sentir como cada um dos membros da orquestra está a contribuir, ou não, para a qualidade final da execução.

Num partido político, como em qualquer outra organização, onde existe um projecto a defender, o sentimento de liberdade não depende da pauta que cada um possui, nem da força com que a batuta do maestro se agita. Mas antes, do modo como cada um, em interligação com os outros, contribui para a execução de um projecto comum.

(publicado no Açoriano Oriental de 26 de Janeiro 2009)

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publicado por sentirailha às 19:12
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