Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Crise global

Crise, do grego krísis, significa, de acordo com José Pedro Machado no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, "acto ou faculdade de distinguir; acto de escolher, escolha, eleição; acto de separar, dissentimento, contestação; acto de decidir; decisão, julgamento (de uma questão, de uma dúvida); julgamento de luta, de concurso; o que resolve qualquer coisa, solução, decisão, resultado (de guerra); fase decisiva de doença”.

De acordo com os sinónimos referidos, a crise é sempre uma experiência de dúvida, não isenta de sofrimento, que se revela necessária quando se está perante uma escolha, a necessidade de proferir um juízo ou enfrentar uma dificuldade.

As crises correspondem, no percurso de vida das pessoas ou das sociedades, a momentos de transição que obrigam e exigem uma reflexão profunda sobre o caminho até então percorrido e uma avaliação do estilo de vida e das opções estruturantes que marcam e constroem esse percurso.

As crises não são um fenómeno recente, sempre ocorreram em todos os tempos, porque são necessárias em processos de crescimento e de mudança dando corpo aos ciclos, nomeadamente os económicos. A este nível, outras crises, profundas e dramáticas como a actual, ocorreram nos últimos dois séculos, com especial ênfase para as consequências da crise de 1929, a Grande Depressão. Talvez o que diferencia esta crise económica das outras é o facto de ser globalizada, vivida à escala mundial.

Se, por um lado, a globalização aproxima os povos e os governos e, em certa medida, contribui para congregar os responsáveis e os cidadãos em torno de causas comuns e mundiais, como é o caso da defesa do ambiente, por outro, quando ocorre a falência de referências económicas e financeiras das grandes potências, com investimentos em várias partes do mundo, os mesmos canais, que serviram para ligar, difundem os impactos negativos.

De alguma forma a crise é uma prova de fogo que atesta da solidez e da resistência dos indivíduos, das empresas ou dos governos, perante alterações do contexto.

Afinal, como diz o povo, é na hora da aflição que se consegue avaliar quem são os nossos verdadeiros amigos. E, de algum modo, também é nos momentos de crise que se atesta quem realmente construiu a casa com bons alicerces e materiais duradoiros.

Confrontados hoje com as alterações exigidas para enfrentar as dificuldades do momento presente, vem-nos à memória a velha história infantil dos três porquinhos. O primeiro, não quis perder tempo com a construção da casa e resolveu o seu problema falsificando a estrutura; o segundo investiu no lazer e no divertimento e descurou as estruturas básicas e a garantia de sobrevivência. Somente o terceiro, mais velho, ponderado e reflectido, investiu tempo e esforço na construção de um edifício que resistisse às intempestivas do “lobo”. No final, moral da história, os mais novos abrigaram-se na casa do irmão mais velho.

Infelizmente, há quem ainda não acredite numa cultura de prevenção, preferindo alimentar as aparências e, como diz o povo, dando passos maiores do que as pernas.

Em momentos de crise, importa rever escolhas e por ventura corrigir percursos, e aproveitar este tempo de incertezas para perspectivar um futuro melhor.

(publicado no Açoriano Oriental de 2 de Fevereiro 2009).

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publicado por sentirailha às 22:56
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