Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Classificadas

Abro o jornal na página dos Classificados.

Percorro as pequenas notícias ou anúncios agrupados por temas: Emprego, Habitações, Terrenos, Motas.

Detenho-me numa categoria, que reúne a grande maioria dos pequenos anúncios. O título parece interessante, “Relax”. Quantos de nós não desejamos, ao fim de um dia de trabalho, um tempo de relaxamento, descomprometido.

Rapidamente me apercebo do tipo de relaxamento que oferecem esses anúncios. São serviços sexuais, prestados por mulheres que se assumem como lindas, morenas, irresistíveis. Algumas acrescentam pormenores, olhos verdes, loiras, altas e até, há quem registe o seu peso, para que não fiquem dúvidas quanto à elegância. Claro que não faltam os atributos sexuais, em alguns jornais demonstrados por fotografia.

Bastaria ler as palavras a bold para ver como se vende sexo num anúncio de jornal: um nome com sotaque estrangeiro, Kessia, Cris, Mary ou Kika; uma promessa de novidade ou até a referência a um estatuto académico, universitária, estudante; por vezes a idade e, sobretudo, um número de telemóvel, compõem o texto de três ou quatro linhas, pago à letra. Relax, categoria por ventura criada para disfarçar o conteúdo real destes anúncios: prostituição ao domicílio.Em muitos deles pode ler-se que a oferta dos serviços inclui deslocações para hotéis ou apartamentos privados, vinte e quatro horas por dia.

A quantidade de anúncios que oferecem estes serviços sexuais faz-nos pensar que se estas mulheres, e por vezes também alguns homens, recorrem a este expediente para ganhar a vida ou ganhar uns extras para viver melhor, é porque o negócio é rentável; não faltam clientes, ou se quisermos não falta quem compre.

A prostituição, segundo alguns considerada a mais velha profissão do mundo, existe porque as relações de muitos casais são desequilibradas, onde ninguém se respeita, onde os filhos são acontecimentos e a sexualidade uma obrigação sem prazer, sem intimidade e carinho.

Mais homens do que mulheres, a fazer fé no número de anúncios dos jornais, sentem-se no direito de compensar essas vidas familiares, desinteressantes ou desinteressadas, recorrendo à compra de uma fantasia, quantas vezes sem medir o risco que tal aventura acarreta.

A prostituição, individual ou em grupo, preenche um lugar deixado vago pela ausência de amor, pela falta de atenção diária e pela rotina que desgasta as relações.

Classificadas, algumas destas mulheres dizem-se com vidas duplas, casadas mas com vontade de trair, licenciadas mas sem trabalho permanente, estudantes sem dinheiro para as propinas. Vendem o corpo ou alguns dos seus atributos, em três ou quatro linhas de texto.

Releio estes pequenos textos, construídos de forma a espicaçar a vontade dos clientes.

Em cada anúncio, imagino uma história que se esconde, quem sabe marcada por desgostos e desilusões.

Em cada história, um percurso de sofrimento, onde não devem faltar relações agressivas, maus-tratos e humilhações. Em cada nome, uma identidade falsa que esconde uma vida onde falhou o amor e se perdeu o respeito.

Em cada anúncio, a confissão de uma derrota; as necessidades reais ou supérfluas, falaram mais alto do que a dignidade humana, do que o respeito próprio.

(publicado no Açoriano Oriental de 9 Fevereiro 2009)

publicado por sentirailha às 23:34
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3 comentários:
De Tibério Dinis a 10 de Fevereiro de 2009 às 00:41
A prostituição em si mereceria reflexão e discussão que dava até amanhã. Quanto aos jornais é fácil, se querem ser comparticipados pelo Estado devem deixar estes anuncios.

Não vou entrar na discussão da prostituição, mas pelo menos em matéria fiscal há fuga ao fisco dessas senhoras, logo está o Estado a comparticipar um jornal que ganha ao publicitar actividades e transacções de dinheiro não são declaradas lesando o estado. Isto apenas no prisma fiscal, sem entrar na discussão da prostituição...
De sentirailha a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:31
Não acha que seria uma forma de ingerência, ética e deontológica, condicionar a comparticipação do Estado aos orgãos de comunicação em função do tipo de conteúdos que publicitam ?
De Tibério Dinis a 10 de Fevereiro de 2009 às 12:56
Não, porque não se entra neste campo, apenas na esfera de crime fiscal. Seria o mesmo que os jornais publicitarem empresas com fugas ao fisco...

Não faz é sentido receber dinheiro do estado e simultaneamente publicitar práticas que lesam o próprio estado. Tudo isto na esfera meramente fiscal.

Não há limitações, da mesma forma que não se fala em limitações de liberdade na proibição de publicidade de bebidas alcoolicas nos jornais, etc.

Haja Saúde

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