Terça-feira, 10 de Março de 2009

A humildade

Ser humilde não significa ser fraco.

A humildade não rebaixa, não anula, antes exalta a capacidade de escuta e a empatia. Ser humilde está longe de ser sinónimo de ignorância. É antes a verdadeira expressão da sabedoria, que se quer profunda, ponderada e serena.

O sábio é sempre alguém que escuta, que acolhe o outro com disponibilidade.

Só se aprende quando se tem consciência de que nunca se sabe o suficiente, sobretudo se pretendemos dar resposta às necessidades de alguém. Sem humildade, dificilmente se é capaz de ouvir, de entender a dimensão em que os outros colocam as suas preocupações.

Ser humilde não é ser pobre, desprovido, nem a humildade configura um traço lamecha do ser humano, mas antes o dignifica e valoriza.

Não é fácil aprender a ser humilde sem fazer a experiência da dificuldade, sem sentir o que significa perder na vida ou até, sem nunca ter falhado. A humildade aprende-se no meio das derrotas, das amarguras da vida; quando tudo parece estar contra nós e apenas resta um “eu” que desafia o mundo e renasce das cinzas.

A humildade tem uma face, a serenidade, que se alia à força, à determinação. Não convive bem com a arrogância, nem com o autoritarismo que se fundamenta no poder absoluto do “quero, posso e mando”. Talvez seja na humildade que reside a diferença entre um bom e um mau líder, um bom e um mau chefe.

Juntar a humildade à liderança é aparentemente uma dificuldade, porque habitualmente se entende que ser chefe é sinónimo de poder, decisão e domínio. Esquecem de que o poder é sempre um meio que serve a concretização de princípios, objectivos e projectos. Como tal, não vale por si; só se torna eficaz na medida em que é correctamente utilizado e serve o bem comum. Se o poder for mal gerido, se for autoritário ou absoluto, de nada valem os objectivos, que até podem ser válidos. Nem tudo se aceita no exercício do poder, mas tudo é possível quando não se é humilde na forma de o exercer.   

A liderança exercida com humildade reflecte valores interiorizados, um espírito humanista, o sentido do outro, do bem comum e a democracia. Um líder humilde tem capacidade para compreender as dificuldades e os pontos de vista daqueles que dependem das suas decisões.

A humildade cria espaço para a partilha e capacita o ser humano para saber ouvir o especialista como o leigo; faz aceitar um conselho do experiente e não minimiza a frontalidade e o radicalismo da juventude. A humildade relativiza os juízos de valor; permite sintonizar com as dores e as dificuldades dos mais fracos e facilita o convívio com o conforto dos mais abastados.

A humildade não é sinónimo de fraqueza, mas antes é a outra face da força e da determinação.

Reconhecer na humildade a simplicidade do despojamento, é dar valor à riqueza dos princípios e validar os cidadãos não pelo que têm, mas pelo que são, pela nobreza da dignidade humana.

(publicado no Açoriano Oriental de 9 de Março 2009)

 

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publicado por sentirailha às 20:58
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1 comentário:
De Paulo Ferro a 12 de Março de 2009 às 12:31
Já tinha comentado este artigo no dia em que foi publicado no Açoriano Oriental, mas não podia de deixar de registá-lo junto do mesmo, agora que está publicado no blogue, e mais uma vez dizer que adorei o artigo, e acima de tudo adorei a sua visão!Aliás, a Dra é exactamente assim em pessoa, sempre foi!Desculpe, a falta de discrição...mas, entendo que o valor das nossas convicções começa na atenção e no reconhecimento que temos em relação aos outros, e neste caso, em relação a si...Bem haja!
Paulo Ferro - blogue - http://magicalislands.blogspot.com/

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