Segunda-feira, 16 de Março de 2009

O divórcio

 

Nunca digas nunca ou desta água não beberei!
Esta é uma máxima muitas vezes confirmada, nomeadamente quando se ouvem histórias de divórcio. Casais, aparentemente estáveis, com mais de dez ou até vinte anos de vida comum, desfazem uma relação conjugal que se julgava sólida, inabalável.
O divórcio legalizado em Portugal na década de 70 não é um fenómeno recente. Antes mesmo de ser legal e legítimo, muitos casais viveram a condição de separados. A coberto de uma aparente união, mais não faziam do que disfarçar em público o total afastamento das suas vidas em privado. Falava mais alto a instituição casamento, o nome de família, o património e a conveniência.
Actualmente nos Açores, por cada três casamentos há um divórcio.
O casamento é cada vez menos um contrato de conveniência mas uma escolha afectiva, que envolve um compromisso. Um compromisso onde ambas as partes têm direitos e deveres, e onde se tolera menos o faz-de-conta. Um compromisso que tem de fazer sentido, se não termina.
Nos Açores a taxa de nupcialidade é das mais altas do país (5,4%0 contra 4,4%0 em 2007). No entanto, ao invés do todo nacional, é diminuto o número de casamentos católicos registados de acordo com a Concordata. (22,9% nos Açores contra 47,3% a nível nacional em 2007). Este facto, aparentemente pouco coerente com a percepção que se tem de sermos uma região de forte expressão católica, não significa que muitos casais, depois do casamento civil não celebrem o ritual católico. Só que esses noivos quando entram na igreja já estão casados perante a sociedade.
Os números revelam por isso um fenómeno de dessacralização do casamento, entendido sobretudo como contrato. Um contrato que muitos já não se atrevem a dizer que é para a vida, mas que se valida enquanto dura.
Será que o facto de se casar segundo o ritual católico ou civil garante mais ou menos a durabilidade da relação?
De acordo como os números do divórcio publicados em 2006, ocorreram mais divórcios em casamentos civis.
Se compararmos estes dados, tendo em conta o tipo de laço conjugal, verificamos que os católicos divorciam depois de uma vivência conjugal prolongada; 51,6% ocorreu em casamentos com mais de 15 anos. E, quando o casamento foi pelo civil, 58,5%, viveram casados durante menos de 9 anos. Num caso como noutro, a maioria ocorre em relações com filhos, sobretudo quando duravam há mais de dez anos.
Ninguém divorcia num dia. O divórcio é sempre um processo doloroso, que até pode durar anos.
Um processo de desgaste continuado, de enfraquecimento de um laço que vai rebentando aos poucos; hoje porque não se resolveu um conflito de interesses, amanhã porque se ofendeu a dignidade do outro; hoje porque se foi infiel, amanhã porque se desconfia; hoje porque não houve partilha de tarefas, amanhã porque não se foi capaz de elogiar.
Nenhum casal que, perante um conservador do registo ou um sacerdote, jure amar e honrar na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença, está pensando em desfazer esse compromisso. Mas o certo é que muitos também não têm consciência do que implica comprometer-se. Descobrem, tarde, que afinal é preciso ceder para se construir um nós, é necessário partilhar para se viver a dois. E sobretudo é preciso construir a relação conjugal todos os dias; o acto de casar não é uma garantia mas o início de um projecto comum.
(publicado no Açoriano Oriental de 16 Março 2009)
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publicado por sentirailha às 21:10
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