Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Porque é mulher!

A discriminação de género é um fenómeno que se manifesta por expressões como esta: vai ser difícil, porque é mulher! Isso só acontece, por ser uma mulher!

Os cientistas sociais designam essa forma de entendimento da realidade, de estereótipos. Construções mentais, que classificam, rotulam e limitam a definição de uma realidade, com base em pressupostos que não se verificam, mas que contêm uma carga histórica. “Sempre foi assim”, “não é de esperar outra coisa”, são outras tantas máximas que consolidam os estereótipos e impedem de ver e esperar mais de uma determinada realidade.
Afinal, as mulheres estão tão sobrecarregadas com o cuidado aos filhos e com as tarefas domésticas, que não se pode delas esperar uma apetência ou disponibilidade para cargos de chefia e até se compreende que sejam menos assíduas, porque acompanham as crianças ao médico, esclarecem dúvidas com os professores da escola e estão sempre alerta para as necessidades da família.
Apetece perguntar-vos. Quando leram este parágrafo anterior, não encontraram nada que “não batesse certo”? Onde está a armadilha deste discurso?
A mulher até pode ter um desempenho diferente, liderar um negócio, ser membro de uma associação de voluntários, estar inscrita numa pós-graduação ou acolher um parente idoso em casa. Mas nada disso é feito, em vez de ou em parceria com, mas sempre para além, da casa, dos filhos, das compras e da gestão doméstica.
A discriminação que pesa sobre as mulheres, não é apenas aquela que lhes retira oportunidades, que lhes paga menos salário ou que as trata como objectos de satisfação sexual, mas também transparece no discurso habitual de quem assume, como ponto de partida, que a mulher deve carregar todas as dores da sua casa e da sua família e só depois preocupar-se com o mundo fora de portas.
Enquanto esta visão perdurar, o que significa dizer, enquanto a família não for um espaço de partilha, onde se aprende o sentido da democracia e do respeito pela individualidade; enquanto na família não se promover o desenvolvimento, as competências e os talentos de todos e de cada um, então as mulheres continuarão a ser discriminadas.
Não se trata de inverter papéis. As mulheres não negam a felicidade que advém da maternidade, da relação com os filhos ou do gosto com que participam na construção do bem-estar familiar. Mas reconhecem, que o domínio da família e da casa deve ser um espaço de cooperação, de interdependência, onde todos se sintam co-responsáveis. Só dessa forma, as mulheres poderão, em parceria com os homens, participar na vida pública, no mundo dos negócios, na assumpção de cargos de chefia, na vida política sem que lhes perguntem, Como é que podes estar aqui! E os teus filhos, com quem os deixaste?
No dia em que fizerem a mesma pergunta a um empresário ou a um político, homem, que se reúne ao serão ou tem de viajar, por razões profissionais, então poderemos afirmar que conseguimos combater parte da discriminação que ainda hoje algumas pessoas vivem, por serem mulheres.

(publicado no Açoriano Oriental de 8 Março 2010)

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publicado por sentirailha às 12:17
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