Segunda-feira, 22 de Março de 2010

Obrigatório, dizer a verdade

A verdade não tem duas leituras, é baseada em factos e, na sua essência, é objectiva.

E se a verdade devia ser obrigatória, quando se expressam afectos ou se educam os filhos, quando se apresentam contas ou se dá um troco numa loja, muito mais, devia ser, para quem governa ou pretende convencer que tem razão.

Utopia, dirão alguns. Nunca teremos políticos ou governantes verdadeiros.

Infelizmente, ainda há quem considere a política, a arte da mentira. Habituado a ouvir os políticos como pregadores de promessas, sem nunca lhes pedir provas, continua a acreditar nas pessoas, talvez, porque o valor da honra e da confiança fundamentam as suas relações.

Por sua vez, algumas dessas figuras políticas, marcadas por aquilo que se designa de carisma, procuram convencer mais pelas palavras bonitas ou pela aparência, do que pelos factos. Um estilo inspirado no tempo em que os governantes decidiam e falavam, sem esperar contestação.

Contestar não significa conflituar, mas afirmar uma cidadania activa, que procura a verdade e não se fica por rumores, que participa e se manifesta perante projectos de interesse público.

O tempo da política que se faz de palavras sem conteúdo ou de afirmações sem fundamento tem os dias contados. É cada vez mais difícil esconder a verdade. Não se pode evitar que outros consultem documentos na internet, registem declarações gravadas no passado e confrontem os políticos, de falar fácil, com documentos que contradizem as suas afirmações.

O povo, feito de pessoas com rosto, observa e está atento, conhece os factos e a realidade em que vive. Por isso, é cada vez menos tolerante perante quem não fala verdade.

Infelizmente, a sessão extraordinária da Assembleia Municipal, sobre a localização da Central de camionagem, que decorreu no dia 9 de Março, em Ponta Delgada, foi um bom exemplo de como uma Câmara toma decisões sem as fundamentar e pretende convencer os outros de que fala verdade, sem o saber demonstrar.

A autarquia gastou centenas de milhar de euros para avaliar, pelo menos, três localizações para esta infra-estrutura e acabou por decidir, sem qualquer estudo técnico, aproveitar um empreendimento privado, destinado a habitação e escritórios e aí instalar a central, no rés-do-chão.

O que Ponta Delgada precisa é de uma estrutura, periférica, que coordene o transporte colectivo interurbano com os mini bus e outras formas de mobilidade. O que Ponta Delgada precisa é de reduzir o número de viaturas individuais e o transporte pesado, que atravessam a cidade, dando condições às pessoas para que possam andar a pé ou de bicicleta.

O futuro exige um esforço de todos, se queremos melhorar a qualidade do ambiente em que vivemos. As gerações que nos sucederão merecem uma cidade menos poluída, mais amiga das pessoas.

A decisão da autarquia, em relação à central de camionagem na Rua de Lisboa, é uma opção não fundamentada que, como dizia um munícipe, parece mais um capricho enganador do que um projecto de verdade. 

Porque, se estivéssemos perante uma escolha, baseada em pressupostos verdadeiros, continuaríamos a não concordar, mas não teríamos motivos para duvidar.

 

(publicado no Açoriano Oriental a 15 Março 2010)

publicado por sentirailha às 15:32
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