Sábado, 27 de Março de 2010

Saudades do Sol

O inverno tem sido muito rigoroso. Um pouco por todo o lado se ouvem vozes de lamento. Há meses que a chuva não nos deixa, há semanas que as terras ensopam e rebentam encostas abaixo, ameaçando comunidades que há séculos vivem em fajãs, sem temerem barreiras ou falésias. 

Sinais dos tempos. Vivemos em ilhas há séculos, e talvez pensássemos que nada se alteraria. Mas o certo é que o ambiente, outrora sentido como o ar que se respira, cada vez mais, depende da acção humana.

Se outrora construímos sem pensar nos sismos, hoje sabemos que as habitações devem ser estruturadas com outra resistência. Se outrora não limitávamos zonas de protecção da orla costeira ou junto aos leitos das ribeiras, hoje sabemos que é um risco construir nesses limites, sujeitos à erosão das ondas do mar ou ao aumento do volume das ribeiras.

Lamentamos a chuva que não pára, as cheias que destroem a nossa paisagem; lamentamos a desgraça que abalou a Madeira ou a enxurrada que matou no Nordeste. Mas, será que não podemos fazer nada para contrariar uma natureza que se manifesta de forma tão dura?

Clamamos por sol, ansiamos por uma primavera que tarda, pelas flores que teimam em cair mal florescem ou pelo verde que se dilui numa massa de lama que encharca os terrenos. Mas, apesar de todos estes sinais, teimamos em não mudar, mantendo os mesmos hábitos de sempre. Construímos sem respeito por limites de segurança, poluímos indiferentes ao destino dos resíduos, usamos o carro para quase todas as deslocações e resistimos a andar a pé mais de cem metros, seja para apanhar um autocarro, para tratar um assunto num banco ou levar um filho à escola.

Afinal, o que é que nos preocupa, manter o comodismo ou travar a destruição progressiva da natureza? O que é que valorizamos, o conforto pessoal e a indiferença ou a acção, mesmo que individual, no sentido da preservação dos recursos naturais e da promoção de um estilo de vida mais saudável?

Vivemos séculos num pretenso equilíbrio, que mais não foi do que um tempo de “vacas gordas” onde se consumiram, de forma excessiva e inconsciente, recursos naturais, infelizmente não inesgotáveis, como a água, o petróleo ou a riqueza dos fundos do mar. Não pusemos limite à construção de novas habitações e deixamos que a nossa paisagem se transformasse, adensando as zonas urbanas, aumentando os níveis de poluição e intensificando o recurso ao transporte motorizado.

Clamamos por um sol que se esconde, detrás das nuvens densas que ensombram o nosso quotidiano. Ansiamos por dias mais claros, mais quentes.

Entristecemos neste tempo sombrio. Mas, quem sabe, esta é a hora para repensar o modo como vivemos, construímos, pensamos as cidades e protegemos a natureza. Não faz sentido, depois das calamidades que assolaram as nossas ilhas, voltar a fazer tudo na mesma, como se não tivéssemos aprendido nada.

Venha o sol e um pensamento esclarecido, que contrarie as decisões sem fundamento e reabilite a relação das comunidades com a natureza.

A humanidade é parte deste mundo, ocupamos este território tal como as plantas e os animais. Não temos o direito de o dominar, para depois o destruir, mas sim o dever de o conhecer para melhor o respeitar.

(publicado no Açoriano Oriental de 22 Março 2010)

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publicado por sentirailha às 22:08
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