Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Os muros que nos separam

Foi notícia de jornal. Uma manifestação de moradores, de um empreendimento a custos controlados, reclamou da presença de alguns vizinhos, a residir no mesmo bairro mas que, como se podia ler nos cartazes, não estariam a pagar o custo dessas habitações ao banco.

Para os manifestantes, esses outros não podiam ter o direito de morar na mesma tipologia de casas. Afinal, se o governo pretendia apoiar essas famílias, que o fizesse num outro lugar, quem sabe na periferia das cidades, em lugares esquecidos como o bairro de Sto. António, vulgo, Peixe Assado. Aí não incomodam. Se têm problemas, ninguém fica a saber e se os filhos não vão à escola ou as mães não têm com quem os deixar, é um problema que apenas a eles diz respeito.

Para os moradores que se manifestavam, auto apelidados de trabalhadores, com compromissos financeiros, o mundo divide-se pelo menos em dois. Os que têm trabalho, famílias supostamente estruturadas e os outros, que vivem de prestações, desempenham tarefas pouco qualificadas, que vivem em famílias numerosas, por ventura, tendo por rendimento o salário mínimo.

Não são dignos de morar paredes meias, quem vive de apoios do estado e quem possui um emprego, mesmo que de baixo rendimento. Houve mesmo quem dissesse que esta convivência iria desvalorizar o bairro, como se a qualidade da comunidade se medisse apenas pelos rendimentos dos seus moradores. O valor das casas iria baixar e um bairro de custos controlados, ganharia o rótulo de bairro social.

Mas que modelo de sociedade pretendem estes manifestantes? Em que bas

es fundamentam o prestígio da comunidade onde residem? No estilo das casas, nos acabamentos ou na conta bancária dos moradores? Não terão perdido o sentido mais profundo do que é viver em comunidade, que sente a solidariedade na vizinhança e promove iniciativas colectivas?

Que comunidade pretendem construir esses moradores, que se recusam a partilhar o mesmo espaço com quem vive em dificuldade e se arrogam o direito de julgar os outros, pelo modo como se vestem ou pelas compras que trazem da mercearia.

Integrar, incluir, implica aceitar e cooperar. Não é compatível com individualismo ou espíritos farisaicos que se julgam imunes às dificuldades. O que aconteceria a um desses moradores, se por ventura deixasse de poder pagar a prestação da casa e passasse a ser ajudado pelo Estado? Será que também ele deveria abandonar o bairro?

A solidariedade não é uma prática administrativa, mas uma forma de relacionamento social. Não depende do montante das dádivas, mas da construção de projectos comuns. É uma acção de duplo sentido, que compromete quem dá e quem recebe.

Dificilmente seremos uma sociedade coesa, escorraçando vizinhos e apontando o dedo a quem recebe apoios sociais do Estado, como se os pobres devessem andar com rótulos. Todos saberiam quem são, nas escolas, nos empregos, na rua e, particularmente nos bairros.

Há mesmo quem afirme que tudo seria mais fácil se fossem distribuídas senhas de comida, rações de bens essenciais, de acordo com os critérios de quem paga. Como se a pobreza fosse apenas fome e sinónimo de incapacidade.

Há muros que ainda nos separam. Alguns, visíveis como as paredes de um bairro, outros que se escondem nas palavras e nos gestos que dividem o mundo em “os nossos” e “eles”, vizinhos sem nome que dão má fama ao bairro.

(Publicado no Açoriano Oriental de 12 de Abril 2010)

tags:
publicado por sentirailha às 01:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
15
16
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

. Retrocesso na Rússia

. Deveres humanos

. Carisma

. Termos de Pesquisa (visua...

. Um inimigo do povo

. Marcas do Tempo

.arquivos

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds