Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Açorianidade

A naturalidade e a residência seriam apenas lugares, dados de identificação que se inscrevem no cartão de cidadão, não fora as raízes culturais, os sentimentos e os laços que se criam com uma terra e com as pessoas que nela vivem.

Ser açoriano não é um acaso de nascimento, nem é uma ligação distante com um lugar perdido no oceano. É uma condição identitária que, transforma a sonoridade com que se fala a língua portuguesa, tempera com pimenta a carne e os enchidos, saboreia o sal dos produtos da terra e bebe o mar nas conchas do marisco.

Ser açoriano não é uma condição limitada pela natureza das ilhas, mas um horizonte que se abre na imensidão do mar, atravessa o mundo e é fonte de orgulho onde quer que haja uma comunidade, oriunda desta região. Uma condição que se afirma com nuances na voz, tantas quantas as ilhas que formam o arquipélago.

Se, por um lado, podemos afirmar que não existe um ser açoriano, mas várias formas de viver nos Açores, por outro, os insulares que escolheram viver nestas ilhas são todos portadores da açorianidade, traço identitário que distingue aqueles que amam esta terra.

A açorianidade é mais do que a soma das várias formas de ser insular, mas delas depende e todas sintetiza, sem desconsiderar a diversidade de sabores, de paisagens ou de riquezas patrimoniais. É um traço único com conteúdo plural.

Afirmamos os Açores como Região, mas somos, em primeiro lugar, insulares que nos orgulhamos da ilha que nos viu nascer, de Santa Maria ao Corvo. Contamos a mesma história das descobertas e do povoamento aos nossos filhos, mas assumimos o sotaque da ilha onde moramos e as tradições dos nossos avós, como nuances de um património comum.

Não é por acaso que as Festas do Espírito Santo são uma afirmação da açorianidade. Diversas no sabor que cada ilha imprime às suas sopas, unem os açorianos em torno do culto ao Divino, manifestação cultural que afirma a importância que o transcendente sempre teve para este povo.

Confrontados com as intempéries e catástrofes naturais, marcados por momentos dramáticos causados pelos sismos e vulcões, enfrentando as ondas do Atlântico ou desbravando uma terra, outrora coberta de pedras, os açorianos souberam lutar pela sua sobrevivência, plantando cereais, exportando laranjas, criando animais ou pescando em águas profundas. Desafiaram o mundo na emigração, mas sempre partiram com os olhos postos na terra natal, da qual nunca desistiram, mesmo quando não podiam voltar. Ainda hoje, passado o tempo da emigração, a açorianidade continua viva nas muitas comunidades criadas no continente português e nas Américas.

Onde quer que haja um açoriano ou uma açoriana, reencontramos o marulhar do mar nos seus olhos, o sabor a sal e o cheiro a erva cortada nas suas palavras. A saudade ecoa quando avivam memórias e misturam a solidariedade nas horas de aflição com a alegria do convívio em dia de tourada, vindima ou coroação.

A açorianidade não é um traço de nascença mas uma herança que se recebe ao nascer ou é legada quando se adopta os Açores para viver. Um traço que faz amar as ilhas como “nossas” e partilhar um feriado que exalta a Autonomia do povo açoriano.

(publicado no Açoriano Oriental a 24 Maio 2010 - Dia da Região)

publicado por sentirailha às 15:46
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

. O Papa do sorriso

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

.arquivos

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds