Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

Envelhecer não é doença

O século vinte marcou definitivamente as condições de vida de muitas populações, particularmente nos países do mundo dito ocidental.

Os avanços da medicina, a introdução do saneamento básico, o abastecimento de água e a rede eléctrica contribuíram para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. As novas tecnologias da saúde, os meios auxiliares de diagnóstico, entre muitas outras inovações médicas, contribuem para debelar enfermidades que outrora condenavam à morte.

Se recuar à década sessenta do século XX, quando nasci, a esperança média de vida ao nascer rondava os setenta anos, menos dez do que é hoje.

Nessa época, a idade da reforma correspondia não apenas ao fim da vida activa mas a uma real perda de capacidade física. Hoje, a média da esperança de vida ronda os oitenta anos, daí que se fale de uma nova etapa no ciclo vital, a quarta idade, que abrange a geração com mais de 75 anos.

Vivemos mais tempo e queremos, todos, viver melhor. Não basta acrescentar anos à vida, é preciso dar vida aos anos que se vive.

Um prazo limite? Teremos sempre, porque nascemos marcados por esse selo que é a finitude da espécie, razão de ser da própria vida. Somos um projecto limitado, mas infinita pode ser a forma como vivemos esse tempo, o contributo que damos, qual tijolo que colocamos na construção do mundo, no local onde vivemos. Não importa se o nosso contributo é mais ou menos notado pelos que nos sucederão. Também os alicerces de uma casa não se vêem e, sem eles, a construção ruiria. O importante é contribuir, participar, apoiar, estar atento para poder elogiar mas também criticar. É estar presente e ser presente neste fluxo de tempo que faz a história.

Ter mais tempo de vida tem levado as sociedades actuais a olharem de modo diferente para os idosos. Há muito deixaram de ser velhos. São cidadãos seniores que as gerações mais novas aprendem a reconhecer, descobrindo que em todas as idades há alegria de viver. Afinal há muito mais vida para além do trabalho remunerado, do emprego, ou mesmo da vida familiar. Ter hoje mais de sessenta anos é usufruir de um tempo que pode ser criativo, onde reine a serenidade, novas aprendizagens, convívios e em que se pode viver liberto de constrangimentos e obrigações.

É certo que a velhice nem sempre é um tempo em que se respira saúde.

Mas, se por um lado, o corpo físico dá sinais de limitação, a resistência é menor e a caixa de comprimidos não pode ser esquecida, também não é menos certo que se envelhece melhor ou pior, dependendo do espírito e da atitude com que se encaram as dificuldades da vida. Sempre que um idoso desiste de sair de casa, recusa-se a frequentar lugares de convívio, perde o hábito de ler, telefonar aos amigos ou conversar com os netos, envelhece um pouco mais e torna mais pesados os anos que tem.

Envelhecer não é doença, mas um desafio diário, próprio da condição humana.

Envelhecer não é fatalidade mas condição, não é defeito mas feitio de quem está vivo e acredita que há sempre motivos para não desistir de aprender, experimentar e descobrir esse mistério que é viver!

(publicado no Açoriano Oriental de 5 de Julho 2010)

publicado por sentirailha às 11:49
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