Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010

Um instante

Podemos medir o tempo de muitas formas, normalmente em segundos ou fracções de segundo, minutos, horas ou dias, para não referir os meses e anos de calendário. Mas há uma unidade de medida, que não tem duração certa, mas que marca a história das nossas vidas, o instante.

Num instante, se fractura um membro ou se rompe um vaso sanguíneo e o corpo deixa de responder de forma equilibrada.

Num instante, há uma viatura que atropela com gravidade um ciclista, que seguia tranquilo no seu exercício de fim-de-semana. Nesse instante, uma vida é destruída e uma família destroçada.

A vida está marcada por instantes, que podem durar segundos ou minutos, mas que funcionam como cortes, barreiras, que se atravessam no fluir da vida, travam os movimentos do corpo e interrompem a actividade normal de um dia.

Afinal, somos tão frágeis; é tão relativa essa normalidade do quotidiano. É tão inseguro o equilíbrio que julgamos ter conquistado, porque respeitamos determinadas regras, cumprimos com receituários do médico ou evitamos, de forma quase religiosa, tudo aquilo que é tido por prejudicial.

A vida, em cada momento, é uma síntese, uma fusão de factores, que se ajustam e se mantêm estáveis, mas nada está garantido; por vezes sabemos como acordamos, mas desconhecemos como nos iremos deitar.

Estamos cada vez mais sujeitos às alterações do ambiente, à poluição, que também ajudamos a criar, devolvida no ar que respiramos. Afecta-nos o stress das organizações que criamos e somos vítimas dos alimentos pré-cozinhados ou enlatados que consumimos, supostamente produzidos para simplificar o quotidiano.

Aos poucos, esquecemo-nos de viver próximo da natureza e o nosso corpo reage, saturado desse envenenamento diário.

Afinal, somos tão frágeis. Num instante, aquilo que tínhamos por garantido se altera, e vemo-nos confrontados com a limitação que sempre nos condicionou, mas que aprendemos a superar, na esperança de a dominar.

Resta-nos uma única dimensão, que não se reduz à fragilidade humana, mas que a transcende, supera e resiste. O espírito, a força do ser que é capaz de enfrentar tempestades, sobreviver a catástrofes e recomeçar, quando aparentemente tudo se perdeu.

Num instante, podemos perder o que tínhamos por garantido e enfrentar uma mudança de vida. Mas, qual naufrago que se debate nas águas revoltosas do mar, é sempre possível agarrar no que acreditamos e não deixar morrer o espírito de força que nos ajudou a vencer outras batalhas. Afinal o que é a vida se não uma sucessão de vitórias e derrotas, de sucessos e perdas.

Enquanto brilhar essa força, nada poderá derrubar ou interromper o projecto ou a missão que cada um de nós tem neste mundo. Sem negar a fragilidade humana, todos os dias temos de reconstruir, reinventar uma nova forma de estar no mundo.

E, quando um instante nos rouba esse modo de estar, até podemos ficar sem nada; até podemos pensar que é impossível retomar o curso normal da vida.

Mas, aos poucos, como chama que o vento não apaga, renasce da força do espírito a pessoa, que esse instante não roubou.

 (publicado no Açoriano Oriental de 16 Agosto 2010)

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publicado por sentirailha às 23:08
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