Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

“Comer, orar e amar”

O ser humano tem fome de espírito. Pode não lhe chamar Deus, até pode afirmar a pés juntos que essa necessidade intrínseca de transcendente nada tem a ver com fé, mas, no fundo, vive em busca de si mesmo e deseja, sobretudo, ser feliz.

Esta procura de Deus ou a carência humana de uma dimensão espiritual, do transcendente, não se avalia pela frequência dos templos, nem pela prática de determinados rituais, seja por convicção ou tradição.

Todos sabemos que, particularmente nas sociedades ditas desenvolvidas, há quem consuma rituais, como se fossem produtos de catálogo de uma qualquer empresa de eventos.

Ter fome de espírito é sentir necessidade de se ultrapassar, de querer mais da vida; ter um desejo imenso de se encontrar e de mergulhar no interior de si mesmo, para libertar amarras, afastar entraves, dúvidas, dependências e rever prioridades.

Quem não duvida ou nunca se questiona sobre o que realmente espera e deseja da vida, por ventura ainda não se encontrou e, dificilmente terá grandes aspirações. Vive dentro de limites, como se o mundo acabasse aí; esconde e cala as vozes do seu desassossego, aparentando rigor, cumprindo etapas, regulamentos e exigências. Passa o tempo, entulhando um vazio interior, que não consegue explicar.

A obra “comer, orar e amar” de Elizabeth Gilbert, protagonizada no cinema, de forma extraordinária, pela actriz Julia Roberts, retrata uma viagem ao interior do ser humano. Começa com uma etapa de prazer intenso, feita de iguarias que enchem os olhos e adoçam a boca, seguida de um exercício de libertação, sofrido e solitário, onde a autora descobre, no silêncio, o valor dos gestos diários e das palavras que curam, ajudam, perdoam, aproximam e transformam. Termina com a revelação do que é o amor, só possível quando se aprendeu a se conhecer e a dar de si aos outros.

Esta história biográfica é um bom exemplo de como precisamos calar as vozes do desassossego e da angústia, e deixar de viver instalado no bem-estar material, se queremos encontrar paz e felicidade.

Depois de se entregar ao prazer da comida e de ter descoberto o sentido da oração, que cria espaço interior, a autora de “comer, orar e amar”, termina com a revelação do amor. Numa viagem que percorre três países, esta obra é uma alegoria, em três momentos, sobre a aventura que é viver.

Porque não basta alimentar o prazer do corpo para se atingir a felicidade, nem é porque se fez uma experiência transcendental que se alcança a paz. Se é importante mergulhar em si, para descobrir o lugar e o projecto de cada um, só na partilha se pode ser feliz.

Deus, o transcendente ou o que lhe quisermos chamar, descobre-se em todas as experiências humanas, incluindo o comer, orar e amar, porque o espírito está, onde estiver um homem ou uma mulher em busca de si mesmo e de sentido para a vida.

(publicado no Açoriano Oriental, de 25 Outubro 2010)

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publicado por sentirailha às 23:51
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