Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Assinar a rogo!

“Importa-se de assinar este documento, a rogo desta senhora?

Assinar como? É que esta senhora não sabe escrever e não lhe podemos dar o dinheiro da pensão se não houver alguém que assine por ela. Infelizmente a senhora não veio acompanhada por um familiar ou pessoa amiga.”

Este pequeno episódio, que vivi recentemente, permitiu sentir o peso do analfabetismo que alguns idosos carregam como um fardo. Com setenta e sete anos, esta senhora, capaz de fazer a sua vida e tratar dos seus assuntos, está limitada nas suas decisões, porque não sabe ler nem escrever. Bem pode usar a marca digital, como prova da sua identidade, mas fica-lhe a faltar a garantia que o nome assegura. Uma simples assinatura, tão fácil de fazer, representaria para esta idosa um enorme poder e um sentimento de autonomia. Insisti que nunca é tarde para aprender, nem é impossível passar a assinar com o seu punho os documentos do banco ou outros.

“Como eu gostaria menina! Mas com esta idade!”

Setenta e sete anos, sem saber ler ou escrever porque alguém lhe negou essa possibilidade, quem sabe para que ficasse em casa cuidando dos irmãos, ajudando a mãe, trabalhando a terra ou simplesmente, esperando que um namorado aparecesse para casar e passar a cuidar da sua própria família. Não é um caso raro, se tivermos em conta que em 1940 a taxa de analfabetismo entre as mulheres portuguesas era de quase 60%. Passados 61 anos, o recenseamento de 2001 regista uma taxa de 12% de mulheres portuguesas analfabetas. É sem dúvida uma grande diminuição, mas infelizmente, ainda não nos coloca ao nível de outros países europeus. A herança do analfabetismo que os governos democráticos receberam após 1974 não foi completamente ultrapassada. E, infelizmente, ainda hoje, muitas jovens abandonam a escola sem terem atingido o que a legislação considera de escolaridade básica.

Se é importante e fundamental investir na promoção da escola junto da população jovem, é um desafio ainda maior levar o saber ler e escrever aos mais idosos. Provavelmente tal ganho teria repercussões na saúde mental daqueles que vivem sozinhos, e passam o tempo recordando com mágoa as oportunidades que lhes foram negadas. Mais autónomos para ler uma receita do médico, o folheto de um medicamento ou terem acesso à informação impressa, idosos que sabem ler e escrever são por ventura mais felizes.

Mas, voltando ainda à senhora com setenta e sete anos, “porque não trouxe ninguém?”. Sabe, as minhas netas estão estudando, uma tem dezassete e a outra quinze. Não as quero prejudicar nos estudos.

A solidariedade entre gerações é importante, mas como em outras áreas, ser solidário é sempre um acto de cumplicidade entre quem dá e quem recebe, num gesto desinteressado de quem recebe dando.

Quem sabe, se os mais novos, esses netos de avós analfabetas, não se dispõem a um gesto de solidariedade e lhes ensinam a escrever, pelo menos o nome. Em troca, talvez, fiquem a saber alguma receita antiga, aprendam um ponto de croché ou simplesmente recebam um conselho sábio de quem já viveu muito tempo e sofreu na pele os efeitos de um país que, no passado, não investia nas competências das pessoas.

(Publicado no Açoriano Oriental a 15 Outubro 2007)

publicado por sentirailha às 21:52
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

. O Papa do sorriso

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

.arquivos

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds