Domingo, 7 de Novembro de 2010

Viver é mortal

Esta afirmação resume bem a condição humana. Somos seres mortais, finitos, limitados no tempo e na capacidade de realização.

E, por estranho que isso possa parecer, nem todos reconhecem que viver é como ter uma doença mortal e que a vida é uma oportunidade, limitada e condicionada, para sermos pessoas.

Estamos condenados a assumir esta condição finita se queremos ser felizes e podermos dar valor ao dia que passa, ao momento presente.

Quando olhamos para trás, para os muitos ou poucos anos que já vivemos, certamente que encontramos desperdícios, oportunidades perdidas, encontros falhados, tarefas deixadas a meio e pessoas de quem nos fomos esquecendo e afastando. No balanço da vida, esta é a coluna do deve que contrabalançamos com a do haver, onde contabilizamos os sucessos, os amigos que fizemos e que mantemos, as realizações, os momentos felizes e tudo o que entendemos serem boas memórias. Qual o saldo final? Pesarão mais os momentos válidos ou os desperdiçados? Contarão mais os encontros ou as ausências?

Viver feliz não é incompatível com a morte, porque a vida é uma doença mortal.

Pode parecer dura esta afirmação, mas se pararmos para reflectir e assumirmos esta condição humana, acabamos por valorizar, de forma diferente, o hoje, o momento, o dia que passa e as tarefas que nos dispomos a realizar.

Que interessa, pensarão alguns, o que faço pouco ou nada faz mudar o mundo? Engana-se quem assim pensa.

A única forma de dar sentido à morte é viver intensamente a vida! Um minuto conta, todo o esforço é importante e um simples sorriso pode contribuir para mudar o ambiente à nossa volta. Viver é como semear, costas voltadas ao terreno, deixando cair palavras e gestos, como se fossem grãos que o vento leva no rodopio das vidas dos outros. Uns até podem ficar esquecidos entre as rochas, mas outros poderão dar lugar a florestas ou transformar-se em oásis de frescura e esperança.

A vida é uma doença mortal sem cura, porque viver é dar-se, consumir energia, partilhar capacidades e competências, transformar problemas em respostas, vencer desafios e ultrapassar derrotas, num tempo limitado.

No rasto da vida de cada ser humano, ficam traços que se misturam com a vida de outros. Quando uns acabam outros começam o seu trajecto, quando uns se esgotam, outros atingem o máximo das suas capacidades.

E é neste passar de testemunho, entre uma vida e outra, que construímos o mundo, onde todos somos importantes e ninguém é dispensável.

A morte não só faz parte da condição humana como lhe confere sentido. Por isso, dizer que a condição mortal é inerente ao viver, é assumir a importância do hoje, do contributo ou da simples presença de cada um nesta malha de relações que tecemos diariamente.

Quem não assume esta condição mortal, tem tendência para se agarrar aos bens materiais e aos poderes efémeros, como se fossem cabos que prendem ao cais; ou então esconde-se por detrás de uma imagem construída, julgando que assim ilude a morte e trava o fluir do tempo.

A vida é como uma vela acesa; ilumina na medida em que é consumida.

 (publicado no Açoriano Oriental de 1 Novembro 2010)

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publicado por sentirailha às 22:26
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