Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Chove, não me apetece sair!

A chuva cai forte contra as janelas. Os pingos escorrem como lágrimas nos vidros e a rua mais parece uma pequena ribeira.

Chove muito. Sabe bem, estar em casa, diante da lareira, no aconchego dos cobertores. Não apetece sair.

O noticiário anuncia inundações, sem-abrigo que morrem ao frio, ribeiras que transbordam das margens e destroem estradas. Mas continuo embrulhado na cama, sem vontade para me levantar, pensando que a chuva, música que me adormece, tem um lado frio, tremendo.

Abandono estes pensamentos tristes e refugio-me no valor da chuva, necessária para tornar verdes os pastos, fazer crescer as árvores e regar os canteiros de flores.

Mas o jornalista continua a lembrar-me que o mau tempo já fez mais uma derrocada e foram instaurados alertas laranjas em várias regiões do país.

Concentro-me no som da chuva a cair.

O mundo é sempre bem melhor, ou parece ser, quando não vemos as desgraças, não ouvimos falar dos que sofrem ou recusamos noticiais que não são agradáveis. É muito mais fácil viver no faz de conta, adormecendo ao som da chuva que bate nos vidros e deixando-se tomar pelo calor dos cobertores que tapam as orelhas e inebriam o espírito.

A chuva cai forte. As ruas parecem agora rios. Está na hora de levantar, preparar-se para sair, levar os filhos à escola, enfrentar o mundo do trabalho, as dificuldades, os desafios.

Ouvem-se as vozes dos mais novos que reclamam, “Mãe, não me apetece, eu podia faltar hoje, só hoje”. “Coitadinhos”, pensa a mãe, “eles até têm razão, podiam ficar em casa, com esta chuva!”

É nestas horas que se marca a diferença. Entre viver sob o lema do “apetece” ou do “enfrenta a vida”; entre preferir o conforto ou assumir que cada um de nós faz falta. É urgente educar a vontade e combater o comodismo, os espíritos instalados, as vidas enlatadas.

Porque a chuva não mata, diz-nos o carteiro todos os dias, quando deixa o jornal na caixa do correio, mesmo ouvindo a senhora reclamar que o papel ficou molhado.

A chuva não impede o trabalhador rural de ordenhar as vacas, nem o padeiro de sair de casa a meio da noite.

O que mata é o comodismo e essa vontade inebriante de se deixar ficar, preso ao meu bem-estar, debaixo dos cobertores; porque não me apetece, hoje vou faltar. Assim como assim eu não faço falta. O mais certo é nem se aperceberem que não estou.

A chuva continua a cair e o mundo não pára, mesmo para quem não quer participar e se julga dispensável. A realidade exige de todos um contributo, na escola ou no emprego, no campo ou na cidade, não podemos parar, muito menos por causa da chuva. Este não é o tempo para desistir, nem para desculpas cómodas e posturas fáceis.

Hoje não fui trabalhar e o meu filho não foi à escola, porque chovia muito.

A chuva bate nos vidros e a água escorre como lágrimas; o mundo triste, empobrece porque alguém desistiu. Não lhe apetecia.

(publicado no Açoriano Oriental de 6 Dezembro 2010)

publicado por sentirailha às 23:36
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