Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Maltratar os pais

O fenómeno da violência doméstica foi durante demasiado tempo silenciado, escondido, ignorado. Fazia parte da vida privada, achavam alguns; um problema das vítimas, pensavam outros.

Aos poucos o véu do silêncio e da indiferença foi sendo retirado, primeiro revelando os maus tratos que são infligidos contra as crianças, depois iluminando os casos de muitas mulheres e mais recentemente, fazendo notícia sobre a realidade dos mais idosos, também vítimas da violência doméstica.

Quando se analisam os contornos da violência sobre os mais velhos, verifica-se que esta é sobretudo perpetrada por filhos, filhas, genros ou noras. Vivendo na dependência desses familiares, quantas vezes para poder sobreviver, ter um tecto e alguns cuidados, há idosos que calam a violência com que são tratados.

Sujeitos às agressões verbais, abuso de poder, furto dos seus bens materiais, incluindo o pouco dinheiro que recebem de pensões, esses idosos silenciam, sofridos, por medo de represálias de alguém, que lhes é muito próximo. Fica sempre uma réstia de afecto por esse filho que grita, escarnece e desrespeita.

Uma réstia de carinho por quem criaram e viram crescer, a quem deram tudo: tempo, comida e oportunidades, que tiravam à própria vida, para garantir o bem-estar da família. Afinal, não valeu de nada. Agora que precisam de apoio, presença, ajuda, estão à mercê das ofensas e agressões desses que ajudaram a crescer.

Ninguém tem o direito de ser maltratado. Diz a canção que “ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém”. Por isso, também não é um dever de mãe ou de pai, desculpabilizar um filho que agride, rouba, explora e se aproveita da fragilidade, da dependência dos pais, quando estes estão cansados devido à idade ou à doença.

Dizem as associações de apoio às vítimas que as denúncias de violência sobre pessoas idosas têm vindo a aumentar. No relatório de segurança de 2009, são 7% os pais, madrasta ou padrasto que denunciaram ser vítimas de violência.

Mas quantos não haverá que ainda se escondem no silêncio dos seus quartos, agarrados a um terço, debaixo de um xaile, embrulhados numa manta à espera de sentir o calor que falta nas relações familiares.

Talvez possamos aumentar a denúncia destes casos, com a ajuda dos vizinhos e amigos, das funcionárias que prestam cuidados ao domicílio, da assistente social ou do médico de família, onde essas pessoas recorrem com frequência. Por seu intermédio, podemos dar visibilidade, voz, à violência sobre os idosos. E, assim, libertar essas pessoas de relações de proximidade agressivas. Mas, acima de tudo, a denúncia deve servir à consciencialização da sociedade, para que sejam punidos aqueles que abusam da força, da condição de activos ou do simples facto de não respeitarem os mais velhos, que por eles se sacrificaram.

O amor é um laço que aproxima, liga e favorece a interdependência. Quando o amor gera dependência, perdeu sentido; transforma-se em medo e dá lugar à sujeição.

Denunciar essas situações, é fazer prova de liberdade, de respeito pela dignidade própria.

Não podemos aceitar que haja agressores que vivam impunes, gozando uma pertença felicidade a que não têm direito. Ninguém pode ser livre, feliz, se espezinhar a liberdade dos outros e silenciar a voz de alguém.

(publicado no Açoriano Oriental, 7 Fevereiro 2011)

publicado por sentirailha às 19:57
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