Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

Misses em ponto pequeno

Num dos canais de televisão porcabo, dedicado sobretudo ao entretenimento, há uma série que dá por título “misses em ponto pequeno”, um programa que é anunciado com frequência no intervalo de outras séries.

Considero que a prática que suporta esse programa é, no mínimo, um exemplo acabado do que são maus-tratos sobre crianças.

Maltratar não é apenas bater ou negligenciar na alimentação, nos cuidados de saúde ou na educação. As crianças também são maltratadas quando não têm condições para crescer como crianças.

Maltratar uma criança é impedir que descubra o mundo, à sua maneira, de forma simples, fazendo as perguntas que todas fazem: porque é que as árvores são verdes e o céu azul, como nascem os bebés ou porque é que os meninos são diferentes das meninas?

Maltratar é transformar uma criança num mini-adulto, seja por via dos comportamentos, das obrigações ou da responsabilidade que lhe são exigidos.

“Misses em ponto pequeno” apresenta meninas que participam em concursos de beleza. Meninas entre os três e oito anos, a quem roubam a infância, que são sujeitas ao mundo de fantasia dos seus pais e mães, indiferentes ao dever de respeitar a dignidade e o equilíbrio emocional das suas filhas.

Algumas das imagens, que passam nesses pequenos vídeos de apresentação, são bem o exemplo da violência a que são sujeitas estas “misses” de palmo e meio: esticam-lhes o cabelo em penteados de princesa, com laca e muitos adereços, para a seguir lhes devolver a chucha no intervalo das apresentações; fazem branqueamento de dentes e bronzeados artificiais e entre birras, são treinadas para fazerem um número no dia do concurso, como se fossem amestradas. E depois, é ver essas mães, treinadoras, aos pulos, gesticulando, completamente eufóricas, quando conseguem que a sua pequena “miss” receba a coroa de mais bela.

Maltratar uma criança é roubar-lhe o direito de crescer como criança.

Ser pai ou mãe é um privilégio, uma oportunidade para aprender e descobrir, com os filhos, o mundo que nos rodeia e onde cada um de nós tem um lugar, um projecto para desenvolver. Aos pais cabe o dever de ajudar a crescer, ensinando e aprendendo com os filhos a melhor forma de serem pessoas saudáveis e equilibradas. Essa é a sua principal missão. Uma missão que está consagrada na convenção universal dos direitos da criança.

Os pais que se esquecem desse dever, desrespeitam os direitos das crianças, quando nelas projectam sonhos ou fantasias que não realizaram nas suas vidas, lhes impõem um estilo de vida, sem ter em conta as suas necessidades ou usam e exploram as qualidades dos filhos para alcançarem o seu próprio sucesso.

Numa era onde todos reconhecem que o trabalho infantil é uma violência que impede as crianças de crescerem de forma adequada, não faz sentido que adultos, supostamente responsáveis, destruam a infância de meninas, que ainda dormem de chucha abraçadas a um ursinho de peluche, amestrando as suas capacidades para satisfazer fantasias de adulto.

Como revelam todos os estudos sobre maus-tratos infantis, os agressores são na sua grande maioria os pais biológicos, que se julgam donos dos filhos e se esquece que a paternidade ou a maternidade é uma relação de guarda, não de posse.

“Misses em ponto pequeno” é um triste exemplo de como há adultos que maltratam crianças, usando lantejoulas e penteados, vestidos de baile e saltos altos.

(publicado no Açoriano Oriental, 11 de Julho 2011)

 

publicado por sentirailha às 12:44
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Onde moram os afetos?

. O (des)acórdão

. O furacão anunciado

. Ruby Bridges

. Escárnio e Maledicência

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds