Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

No mês das almas

A cultura popular, marcada por uma religiosidade que escapa aos rituais das igrejas, escolheu o mês de Novembro para o culto às almas.

Outrora, dizem os mais antigos, cantavam-se às almas noite dentro, pelas ruas silenciosas, junto às “alminhas” e aos cemitérios. Comia-se milho cozido e faziam-se oferendas, pelos mortos da família, como o “pão por Deus”, tradição cada vez mais esquecida nos últimos anos. Hoje, as bruxas, os esqueletos, as máscaras e a tradição anglo-saxónica do halloween vieram abafar a velha prática das saquinhas de esmolas, de quem pedia “pão” e não prometia vingança se nada recebesse.

A morte evocada nos dias das almas e de todos santos é hoje exorcizada numa fantasia de carnaval que, entre bruxas e esqueletos, diabinhos e feiticeiras, disfarça uma realidade que incomoda. Incomoda e não faz sentido.

Não faz sentido morrer, se a vida significa ter, acumular, ganhar, ser o maior, chegar ao topo e vencer. A morte atrapalha, destrói e torna inúteis todos os ganhos de poder. Afinal, nada do que se conquista de material em vida permanece para além da morte. Apenas o que se deixa aos outros, por ventura em forma de bens materiais, mas sobretudo, em termos de conhecimentos e sabedoria, se constitui como património e recurso que pode crescer com o tempo. Apenas o testemunho que se deixa aos outros sobrevive e dá continuidade ao trabalho dos que, entretanto vão partindo.

Integrar a morte na vida é por isso uma prova de maturidade. Entender que o percurso que fazemos é sempre limitado, é a única forma de investir de forma mais qualificada na vida que passa, aproveitando cada dia como uma dádiva, fazendo deste tempo uma oportunidade para ser feliz e fazer felizes os outros.

O que é irónico é ver como se teme a morte biológica e, ao mesmo tempo, se mata e se morre diariamente. Porque é de morte que se trata, quando se maltrata ou agride alguém, por palavras ou por gestos, se faz da corrupção ou da criminalidade uma forma de ganhar poder ou se perde o interesse pela vida, às vezes por razões tão pequeninas.

A vida é um tempo limitado, condicionado na quantidade de anos, mas que permite ao ser humano construir de acordo com os sentidos que escolher.

A vida é uma tela onde cada um, isoladamente e em comunidade, pode pintar livremente a sua história. Condicionado, é certo, pelas cores das tintas, pelo contexto onde vive, a história que vai construindo ou pelas oportunidades, que marcam a circunstância de cada um. No entanto, quando alguém se recusa a fazer ou impede outros de fazerem a sua obra-prima, limitando a criatividade e a liberdade de ser ou dificultando o acesso aos recursos necessários, mata a vida e retira a expressão única e insubstituível, que faz de cada um, uma tela única, grande ou pequenina, muito ou pouco pintada.

Os antigos fizeram do mês de Novembro um mês sombrio, porque outrora os mortos, apesar de integrados na cultura popular, metiam medo, provocavam um sentimento de respeito e temor. Hoje, exorciza-se a morte nos filmes, nos livros de terror e nas festas do halloween, mas nem por isso, se aceita de forma mais tranquila este devir do ser humano.

(publicado no Açoriano Oriental a 5 de Novembro de 2007)

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publicado por sentirailha às 21:28
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