Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Dever ou prazer

Em muitas circunstâncias da vida, agimos por prazer e ou por dever. Quando conseguimos viver, conjugando as duas experiências, em geral concretizamos uma situação quase ideal.

O dever enquadra as acções na relação que cada um de nós estabelece com os outros, a sociedade, um conjunto de obrigações, uma organização. O prazer centra-nos em nós próprios, nos desejos, nas aspirações, na realização pessoal.

O ser humano concretiza o seu projecto de vida na medida em que consegue percorrer um caminho, ao mesmo tempo retirando o prazer da caminhada e consciente das tarefas que esta lhe exige, nem sempre agradáveis ou oportunas.

Vem esta reflexão a propósito de uma comparação muito frequente, entre homens e mulheres, na sua relação com a culinária. Dizia alguém, porque será que, apesar de a cozinha ser um espaço associado à mulher, quando se trata de grandes chefes, a maioria e os mais conhecidos, são homens?

A resposta pode ser dada com os dois verbos que referi no início. Enquanto muitas mulheres cozinham por dever e a cozinha foi-lhes imposta, na educação, na tradição, como espaço que integrava o modelo da “boa dona de casa”, os homens entraram neste laboratório da alimentação para fazer experiências, inventar pratos, fazer negócio.

Enquanto a cozinha do dever, até pode ser criativa, mas tem como pano de fundo a boa gestão dos recursos, os aproveitamentos, o objectivo de alimentar e, se possível, agradar; a cozinha do prazer é um acto de criatividade e inovação, de procura da estética do prato e da fusão de aromas, exige bons ingredientes e, por vezes, implica desperdícios, sempre que não corresponde aos padrões exigidos no mercado da restauração.

Às mulheres, que cozinham todos os dias para a família, exige-se capacidade para garantir a sobrevivência, engenho para saber aproveitar sobras das refeições anteriores, como acontece com a “roupa velha”, “as empadas”, para que nada seja deitado fora e tudo volte à mesa com nova apresentação.

Aos chefes de cozinha pede-se imaginação e arte para conjugar os produtos alimentares, que devem ser de primeira qualidade, com técnicas apuradas; espera-se que saibam produzir novas receitas e transformar uma refeição numa experiência degustativa.

Prazer e dever são duas dimensões da vida, que nem sempre conciliamos, mas que constituem a essência da actividade humana. Por um lado, corresponder ao que os outros esperam de nós e, por outro, realizar-se como pessoa.

Quem apenas age motivado pelo prazer, acaba por se tornar egoísta, alienado do mundo e das necessidades dos que o rodeiam.

Por sua vez, quem vive focado no dever e nunca dá a si próprio uma oportunidade de sentir o prazer de viver, acaba por se tornar amargo, contendo uma revolta que nem ele próprio percebe.

Viver é saber conjugar o prazer com o dever. É realizar-se na medida em que se cumpre as regras e cumprindo-as, introduzir nelas a humanidade.

(publicado no Açoriano Oriental, a 8 Agosto 2011)

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publicado por sentirailha às 11:09
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