Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

Falta fazer o fato!

Andava um homem pela rua, de olhos postos no chão, quando deparou com um botão metido entre as pedras da calçada. Era um botão escuro de quatro furos, desses que outrora se colocavam nas braguilhas. Sorte! Dizem as vozes do povo. Mas o que fazer com este botão!? Já agora, pensou de imediato o homem, vou fazer um fato. É a melhor forma de o aproveitar.

Esta historieta é bem o retrato do despesismo a que muitos terão de por fim, se quiserem viver em tempos de austeridade. Compram uma peça, pode ser de vestuário ou um pequeno móvel, até pode ser uma torneira porque avariou a da cozinha, e logo a seguir proclamam a frase fatal: já agora! Já agora, levo também as calças ou a gravata a condizer; aproveito o preço e compro o espelho que talvez fique bem sobre o móvel; ou então, renovo por completo o lava loiças.

Quando não se tem uma ideia clara do que se quer e do que pode comprar, acaba-se sempre por gastar mais do que a conta. Muitas vezes fica-se com o objecto na mão, sem saber onde colocar! São uns brincos demasiado vistosos que não combinam com a roupa e “pedem um vestido novo”; é um projecto de museu, qual obra-de-arte adquirida em regime de franchising, que não se enquadra no lugar que, supostamente lhe estava reservado, por não ter sido pensado como edifício, integrado nesse espaço.

Em qualquer dos casos, sejam os brincos ou a obra-de-arte, a única forma de corrigir a mão é gastar mais dinheiro: compra-se um vestido ou procura-se um terreno, compatível com a compra desajustada.

Esta tentação de gastar para justificar um erro é fatal nas finanças de uma casa, de uma empresa, de uma autarquia ou de um governo e revela falta de planeamento e de objectivos claros.

Dizem os entendidos que, quando se vai às compras, se deve levar uma lista de necessidades e que nunca se deve ir ao supermercado com o estômago vazio, pois a tentação de comprar alimentos desnecessários e pouco saudáveis é maior.

Noutros domínios, todos devíamos agir do mesmo modo. Ninguém deveria sair de casa para fazer compras sem ter consciência das suas necessidades e das suas prioridades. Porque, não faltam objectos que gostaríamos de ter, mas é fundamental perguntar-se, será que preciso? Poderei dar-lhe a devida utilização e rentabilidade?

Mas se às pessoas se exige ponderação e bom-senso, o mesmo deve ser aplicado aos governantes, do poder local, regional ou nacional. Porque não basta falar de crise e de austeridade, é preciso pensar o impacto futuro das decisões que se tomam no presente. E, nesse domínio, há investimentos que não têm pernas para andar e, pelo contrário, há despesas que, na realidade, são investimentos que se tornam reprodutíveis, criadores de riqueza e de mudanças positivas.

Todos temos de aprender a ser bons gestores nestes tempos de austeridade, cortando nos excessos, sem por em causa a qualidade; ponderando investimentos, tendo sempre em atenção que o impacto não deve ser medido, apenas, olhando o presente, “poupei uns trocos”, mas tendo em conta o futuro, a sustentabilidade desse investimento, “vou poder fazer mais com menos”.

Se a vida é feita de oportunidades, uma oportunidade só é uma encruzilhada de sucesso, quando sabemos que rumo queremos dar à vida.

(publicado no Açoriano Oriental a 15 Agosto 2011).

publicado por sentirailha às 14:36
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Onde moram os afetos?

. O (des)acórdão

. O furacão anunciado

. Ruby Bridges

. Escárnio e Maledicência

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds