Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Cortar o cordão umbilical

No parto, alguém se encarrega de nos separar do filho que acolhemos durante a gestação. E, ao fazê-lo, inicia-se um processo de crescimento acompanhado, marcado por essa individualização necessária. Cada ser humano é um projecto próprio, que exige protecção, apoio, mas que só se descobre quando encontra o seu próprio espaço, enfrenta as suas lutas e aceita os desafios que a vida lhe oferece.

O apoio de que precisa para sobreviver, após o nascimento, vai se esbatendo à medida que se afirmam as próprias cores. As figuras que lhe indicavam o caminho, pegavam ao colo na hora do sono ou decidiam por ele na dúvida, vão se afastando desses papéis até não serem mais do que sombras, presenças, pontos de apoio, referências.

Na hora de soltar a mão e deixar seguir, como que se corta esse cordão, que há muito deixou de existir, mas que a vontade de proteger pode levar alguns a reconstruir, numa ânsia de viver a vida dos outros.

Cada ser humano constrói um percurso, que se cruza com outros, que se interliga e forma uma rede de amor, solidariedade, interdependência, mas que não se confunde. E, por mais que achemos que o caminho dos outros está mal trilhado ou podia ser melhor percorrido, não nos cabe a nós vivê-lo ou por eles tomar decisões.

Cortar o cordão umbilical no acto do nascimento é um sinal de desprendimento e autonomia. “Ninguém é de ninguém”, nem mesmo aqueles que apelidamos de “nossos”. Por isso, devíamos ser capazes de nunca nos apropriarmos da vida dos outros, em particular dos filhos. Na realidade não são, nem nunca foram, “nossos”, no sentido em que não nos pertencem. Não são propriedade que compramos ou alugamos, nem estão cotados em bolsa para que tomemos decisões de investimento à espera de lucro.

Quando os filhos nos dizem “adeus” num cruzamento da vida, fica a dor de os ver divergir, seguindo um caminho que é só deles, aliás, que sempre foi. Tivemos a ilusão de, até ali, ter estado na mesma estrada, quando na realidade seguíamos caminhos próprios, apesar de juntos.

Não é uma despedida, nem mesmo uma partida, apenas a afirmação individual de cada vida, que continuamos a acompanhar. Umas vezes mais próximos, noutras olhando à distância, umas vezes na sombra, noutras de mão dada, apoiando de forma directa, incentivando ou até dando aquele colo de outros tempos.

É nos cruzamentos, momentos de transição, que se toma consciência de como viver em comunidade, família, é reconhecer esta rede de caminhos que se cruzam, que não têm de estar distantes, mas que são diferentes, próprios.
Prendê-los é condicionar a liberdade de cada um, é limitar a capacidade de descoberta e afirmação que torna única a marca de uma pessoa.

Mesmo que não seja fácil dizer “adeus” no cruzamento, fica a certeza de que a união não anula a individualidade e a parceria não destrói, antes se enriquece com, a diferença.

Cortar o cordão umbilical é o primeiro acto de afirmação da liberdade individual do ser humano e a dádiva maior que se recebe dos que nos amam. Um gesto necessário para que cada um possa ser autónomo, mesmo que interdependente e possa ser livre, sem prescindir de apoio.

(publicado no Açoriano Oriental de 10 de Outubro 2011)

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publicado por sentirailha às 23:48
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