Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Lugar à reflexão

O tempo foge, os dias passam a correr e, quando damos por nós, o fim-de-semana já passou.

Esta experiência subjectiva do tempo é cada vez mais premente. Não porque as horas tenham deixado de ter sessenta minutos ou os dias vinte e quatro horas, mas simplesmente, porque o modo como se ocupam essas parcelas de tempo é cada vez mais marcado pela pressa de chegar, pelos números a produzir, pelo volume excessivo de trabalho e de tarefas a desenvolver. A esta intensidade de trabalho, acresce-se os tempos dedicados a ver televisão, para alguns quase como uma obrigação, porque há séries ou episódios de uma telenovela que não se querem perder.

Fica pouco tempo para visitar a família ou os amigos, até porque há hoje mais espectáculos, sessões de cinema e espaços comerciais abertos até tarde, preenchendo a vida quotidiana de forma muito mais alargada.

Mas então o que falta para que os dias não fujam e as semanas não voem!?

Faltam tempos de meditação e reflexão, encontros calmos com os amigos, onde fluem aquelas conversas profundas que fazem ver e pensar, que ajudam a ponderar e amadurecer decisões e nos permitem emitir opiniões.

Quando se pára para reflectir e, sobretudo, se conversa com quem tem experiência da vida, ganha-se em sabedoria. Um minuto parece uma hora e uma hora, um dia, porque é a qualidade do que fazemos e a intensidade do que vivemos, que faz sentir o tempo, a ponto de podermos dizer ao fim do dia, valeu a pena ter vivido. Ir até ao fundo do que pensamos, não viver pela rama, mas de forma enraizada, qualificar a comunicação, sendo sinceros e não superficiais nas emoções, curiosos no olhar e não indiferentes, transforma o tempo em percurso vivido. Pressas, precipitações, superficialidades são tempo desperdiçado, lugares vazios sem história.

A vida pode ser curta, mas é certamente muito mais interessante quando pode ser útil. E, para que isso aconteça, não basta existir é preciso viver cada dia de forma intensa – como se fosse o último -, o que não significa forçosamente, passar o tempo todo a trabalhar e a produzir mas encontrar sentido em tudo o que se faz, reservando tempos para os outros e tempo para si próprio.

A vida até pode ser complicada, enredada e confusa, mas quando se medita e se faz dos acontecimentos lugares de análise e de paragem, encontra-se um fio condutor no meio desse emaranhado de fios que tecem as confusões, os conflitos ou a desorganização.

Meditar, reflectir, ou por ventura, rezar para aqueles que acreditam e têm uma vivência de fé, são tempos de purificação e relaxamento, que deixam entrar o silencio no meio dos ruídos e fazem penetrar a luz no meio da escuridão, abrindo caminhos no deserto.

Meditar, reflectir, é hoje uma necessidade de todas as organizações humanas, seja na família, numa empresa ou em qualquer outra instituição.

Meditar abre horizontes de interligação entre os homens.

Debater os assuntos que preocupam um casal, uma família, grupo ou mesmo que perturbam a vida de uma comunidade é ter consciência de que, quando as relações falham não se deve procurar um remédio sem antes conhecer o mal de que padecem. Meditar pode ser o princípio, quando se procura entender os erros, as fragilidades que provocam esse mal-estar, descobrindo, ao mesmo tempo, os pontos de força que estruturam a vida.

É preciso reflectir esse tempo que passa a correr, em silêncio ou por palavras escritas, ao som de uma boa música ou do marulhar das águas do mar.

Dar lugar à reflexão é marcar encontro com a paz.

(publicado no Açoriano Oriental a 12 de Novembro 2007)

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publicado por sentirailha às 22:25
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