Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

A solidariedade dos pobres

Quando a necessidade aperta, a aflição atinge a casa do vizinho ou o trabalho exige mais braços, a solidariedade acontece nas aldeias, nos meios rurais, nas casas menos abastadas, nas relações daqueles que há muito se conhecem.

Quase nem é preciso pedir. Há sempre alguém que aparece para ajudar. Em troca, quando precisar de apoio ou porque faltam ovos para o almoço, outros virão retribuir essa ajuda, com a mesma disponibilidade.

De acordo com um estudo da comissão europeia, são os pobres deste país quem mais suporta a austeridade. Diz esse estudo que Portugal “é o único país com uma distribuição claramente regressiva, onde os pobres estão a pagar mais do que os ricos, quando se aplica a austeridade”. Para além dos sacrifícios estarem a ser pedidos de forma desigual a ricos e pobres, segundo refere o texto da união europeia, aumentou o risco de pobreza, particularmente entre idosos e jovens. (cit. C. Manhã de 4Jan12).

Depois de Portugal ter conseguido em cinco anos e com transferências sociais, baixar a taxa de risco de pobreza de
20% (2005) para 18% (2010), em seis meses, com as medidas adotadas pelo atual governo da República, o país voltou a registar uma taxa de pobreza de 20% e agravou a distância entre os que mais possuem e os que vivem abaixo de 60% do rendimento médio do país.

Responsáveis políticos enchem o peito de satisfação, porque agora sim, não vai haver quem se aproveite dos apoios sociais, como o rendimento social de inserção, para malandrar e vai ser possível “separar o trigo do joio”, como referiu o ministro Mota Soares. Agora sim, os “falsos pobres” que o sistema deixou passar, apesar de todos os comprovativos e processos de fiscalização, vão deixar de receber esses benefícios sociais. E, pasme-se, são esses carenciados que o sistema aceitou, que vão contribuir para aumentar as pensões mais baixas dos mais idosos.

Ser solidário sempre foi um comportamento que desinstala quem mais pode dar. Um estado não pode achar que é solidário porque tira a quem menos tem e que pediu ajuda, para compensar quem dela também precisa. Um estado não pode ser justo se não mexer em quem mais tem e deixar que esses fujam aos impostos ou não declarem rendimentos.

É pura hipocrisia, anunciar um aumento de 7 euros numa pensão de miséria e ao mesmo tempo agravar o preço dos transportes públicos, aumentar o custo da eletricidade e da água, taxar no máximo bens de consumo, aumentar o preço do pão e dificultar o acesso aos cuidados de saúde.

Entre os que menos têm sempre houve solidariedade em gestos diários, mas só quem deles beneficia pode confirmar. Aliás, é bíblica a história da dádiva silenciosa e anónima de uma viúva pobre que contrasta com a arrogância do rico, que mostra a todos a sua esmola.

Não basta partilhar refeições e vestuário. Se queremos mudar este país, há que ser capaz de incomodar corporações e grupos profissionais que não abdicam de privilégios, empresários que não respeitam os direitos dos trabalhadores ou funcionários que desperdiçam
os bens públicos.

Um governo que se envergonha de ajudar os mais pobres e recusa “novas oportunidades” a quem não concluiu a escolaridade obrigatória não é solidário e muito menos é justo.

Não é vergonha termos dificuldades. Vergonha sim é sermos o único país da Europa que protege os ricos e põe os que menos têm a suportar a crise.

(publicado no Açoriano Oriental, de 9 Janeiro 2012).

publicado por sentirailha às 23:43
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Onde moram os afetos?

. O (des)acórdão

. O furacão anunciado

. Ruby Bridges

. Escárnio e Maledicência

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds