Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

O que há de pior na política...

 “O que há de pior na política não é a divergência de opinião. O que há de pior na política é o pessoalismo, a forma de resumir tudo ao “tu cá tu lá”, ao desprestígio, à invasão do privado e à má cobrança das questões éticas que ocorrem. Um bom combate, uma boa polémica, um bom debate, com uma palavra ou outra incontida, isso só faz bem.” (Carlos César, RTP-A, 5 Maio 2012)

É raro ouvir tanta lucidez num discurso político. Mas não seria de esperar outra coisa de alguém que revela plena consciência do percurso que fez na vida política, quer como líder da oposição, quer como presidente do governo. Uma lucidez que contrasta com o amadorismo de outros governantes, incapazes de antecipar o impacto das palavras que proferem, confrontados em permanência com a necessidade de contradizerem as suas afirmações da véspera.

Políticos que não se movem num quadro de referências consistente e que, por isso, descem com facilidade à opinião pessoal, pouco estruturada, circunstancial, ou como diria o presidente do governo, num “tu cá tu lá” que trata os assuntos do país ou da região, com ligeireza, por vezes até brejeirice, sem o respeito devido aos cidadãos sobre quem falam.

A credibilidade da política depende também de homens e mulheres que conduzem a sua atividade política com base num pensamento coerente e um projeto de sociedade, que procuram por em prática, em ações, decisões e afirmações.

Não merecem crédito políticos que desrespeitam os jovens licenciados portugueses, as primeiras gerações qualificadas pós 74, tratados como “jogadores de futebol” ou “produto de exportação”. O ministro Relvas (4 Junho) esquece-se que exportar massa cinzenta, como referiu, não dá lugar ao pagamento de passes e não tem retorno financeiro para o país e, dificilmente, esses jovens voltarão para fazer parte da geração adulta e decisora do futuro de Portugal. É pura e simplesmente, um desperdício, depois de uma década a investir na qualificação superior. Este é um sinal do falhanço deste governo na república que continua a desinvestir nos recursos humanos, quando convida os jovens a abandonar o “barco”, ou então lhes oferece o salário mínimo para ficarem.

Precisamos de credibilidade na política e isso significa que é fundamental um discurso sobre a realidade em que vivemos que não banalize as dificuldades por que passam as populações, e muito menos se congratule com o sofrimento, mesmo que silenciado, de muitas famílias, como referia o primeiro-ministro, elogiando a “paciência” dos portugueses (6 Junho 2012) perante o aumento do custo de vida, da taxa de desemprego ou das dificuldades crescentes.

A política exige ética e isso significa, mover-se num quadro de referências, de valores, que estruturem o pensamento e fundamentem a argumentação, elevando o político a um patamar de excelência, como demonstrou Carlos César na sua entrevista de balanço de dezasseis anos de governação.

O pior na política não é a divergência de opiniões, é ouvir políticos  que navegam à vista sem um rumo, sem um projeto de desenvolvimento. Os governantes que se congratulam por estarem a cumprir para além do memorando da troika, esquecem que tomar comprimidos a mais do que estipula a receita, não acelera a cura e pode ser tóxico.

Em política não vale tudo. O povo exige coerência e consistência no discurso e isso sente-se, quando estamos perante um grande político.

(publicado no Açoriano Oriental a 11 de Junho 2012).

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publicado por sentirailha às 20:07
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