Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

A pretexto da amizade

Festejar o dia dos Amigos, das amigas, dos compadres e das comadres é uma tradição açoriana que marca as quintas-feiras que antecedem o Entrudo. Tempo de brincadeira, folia, “assaltos” feitos com consentimento das vítimas, bailes caseiros que fazem afastar os móveis da sala para dar espaço ao convívio, o Carnaval sempre foi um tempo de libertação, algum excesso, mas sobretudo, um tempo para brincar e fazer de conta.

Não se sabe bem quando e porquê, as brincadeiras espontâneas, os assaltos e as mascaradas, por vezes, dão lugar a outras formas de convívio. Das casas particulares, passou-se a conviver nos restaurantes e nos bares, em salas mais ou menos reservadas, com menus especiais e programas, no mínimo, diferentes.

Até aqui se pode compreender. As pessoas trabalham, não têm muito tempo e torna-se mais prático fazer a festa num restaurante, apesar de se perder o espírito carnavalesco que juntava os amigos em ranchos de mascarados, em folias improvisadas e bailaricos alegres.

Podemos até pensar que pouco importa o modo, o importante é festejar a amizade, valor fundamental nas relações, na solidariedade e sentimento de apoio que todos necessitamos, nos bons e nos maus momentos. Mas será que é disso que se trata, será por causa da amizade que as pessoas se reúnem num restaurante ou num bar em dia dos amigos ou das amigas?

Pelo que é dado observar, muitos grupos, particularmente de mulheres, fazem desta saída anual, um escape, uma ocasião para libertarem fantasmas e algumas fantasias. Quem sabe por viverem relações pouco satisfatórias, estarem presos ou presas a uma relação conjugal que não realiza, ou simplesmente porque em matéria de sexualidade, o tabu em que foram educados e a rotina em que vivem esse domínio, é uma caixa secreta recheada de ideias pouco claras.

Poder assistir a um espectáculo de “strip tease” ou manusear objectos comprados numa “sex shop” são desafios à imaginação daqueles que transformam o dia dos amigos ou das amigas numa ocasião para expurgar fantasmas envoltos em erotismo ou por vezes em pura pornografia.

Se alguma leitura se pode fazer desta necessidade, a que alguns estabelecimentos procuram responder, é que estes homens e sobretudo estas mulheres precisam de ajuda ao nível da sua sexualidade. Não se trata de condenar a frequência deste tipo de shows ou até a compra de objectos, mas lamentar o histerismo que imprimem a este dia, a perda de controlo e a busca de excessos, por ventura contidos durante um ano inteiro. Aparentemente, mais as mulheres do que os homens, transformaram o dia das amigas numa ruptura com a monotonia, uma ocasião para ser diferente, sem que “eles” estejam por perto, porque é de amigas/mulheres que se trata.

É um pouco estranho que ainda haja quem receie a abordagem da educação sexual nas escolas; pais que consideram esse assunto uma questão familiar e depois se comportam como adolescentes imaturos. Na realidade, buscam o sexo, quando o que não têm resolvido é a sua sexualidade; buscam a excitação num dia, quando o que lhes falta é o prazer e o amor durante o ano.

Dias das amigas e dos amigos é tempo de convívio, de brincadeira e faz de conta, tempo para descobrir os laços que nos aproximam e nos tornam melhores pessoas. Mas, nem sempre é isso o que acontece, nem é essa a imagem que levam os que nos visitam por esta altura.

É pena, porque a amizade não deveria ser pretexto para a libertação de fantasmas, mas para o encontro de pessoas. 

 (publicado no Açoriano Oriental, dia 28 de Janeiro 2008)

publicado por sentirailha às 21:38
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